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Mohammed bin Salman, o centro geodésico da Arábia Saudita


Poster de principe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman

Artigo de Raúl Braga Pires, politólogo e arabista ,sobre a operação anticorrupção lançada pelo novo homem-forte da Arabia Saudita que quer levar o pais à modernização pós-petróleo.

Se recuarmos a 2015, veremos o Príncipe Mohammad bin Salman (mbS) ser nomeado Ministro da Defesa e, em Junho deste ano, com o afastamento e destituição do até então Príncipe Herdeiro Mohammed bin Nayef, também Ministro do Interior, vemos MbS tornar-se Senhor de toda a Segurança Interna Saudita.

Com a demissão/detenção agora anunciada, do Príncipe Mitaab bin Abdullah, Chefe da Guarda Nacional, pode-se dizer que aquele, que em Junho deste ano, foi entronizado como Príncipe Herdeiro (Mohammad bin Salman), tem agora poder de fogo suficiente para garantir as reformas que quer implementar no Reino, na sua Visão 2030, de um Mundo pós-petróleo.

As razões para as detenções de 11 príncipes, 4 ministros em exercício de funções e vários ex-ministros, cujos nomes não foram ainda revelados, prendem-se com acusações de corrupção e enriquecimento ilícito, levadas a cabo por um recém-criado Comité Anti-Corrupção, liderado pelo Príncipe Herdeiro MbS e que anda a investigar as cheias de 2009 em Jeddah, bem como a gestão da luta contra o vírus Corona, o vírus da Síndrome Respiratória no Médio Oriente (MERS, no acrónimo em inglês). Este Comité tem Poderes para emitir Mandados de Captura, proibir viagens/deslocações, bloquear/desbloquear contas bancárias, monitorizar movimentos bancários.

Mudanças aceleradas

Desde Junho deste ano que as mudanças feitas pelo novo Príncipe Herdeiro, têm sido rupturas com o passado e têm agradado mais ao Ocidente, que interna e regionalmente. Para começar, em Setembro o Reino adopta uma postura mais Ocidental, ao aderir à habitual celebração do seu Dia Nacional. No caso saudita, a festa durou uma semana.

Por que é que isto é importante?

Em 1º, na percepção “islamicista” mais conservadora, a ideia de “festa” é a de algo que vem de fora e que corrompe, onde homens se misturam com mulheres, inconcebível! Logo, esta iniciativa da Celebração do Dia Nacional, foi importante para confrontar os resistentes e depois absorvê-los no circuito, que o Dia Nacional celebra-se todos os anos e assim cria-se um hábito, uma rotina, que mais tarde até será certamente invocada como Tradição, numa defesa mais desesperada da causa e, à falta de melhores argumentos.

Em 2ª, esta Celebração/Festa, não poderia ficar vazia de conteúdo e limitar-se ao social. Foi assim o momento ideal para se anunciar o fim da proibição da Mulher conduzir, de frequentar recintos desportivos e de assistir a concertos de música. Sobre este assunto, ler Arábia Saudita autoriza condução no feminino.

Em 3º, a celebração de um Dia Nacional, obriga a que todas as Embaixadas do respectivo país abram as suas portas aos seus convidados de preferência e outros, que também se querem ver incluídos na lista do beija-mão. Ou seja, ao nível da Diplomacia, este é um sinal positivo de que há, de facto, uma vontade de mudança no Reino, ficando patente, desde logo, uma nova atitude.

Mais recentemente ainda, no final de Outubro, bin Salman, por ocasião da Future Investement Initiative prometeu um reino “aberto a todas as religiões” e a “erradicação dos promotores de pensamentos extremistas”, pelo que é natural que tenha ganho demasiados anti-corpos e sinta que para fazer as reformas que gizou, só o conseguirá com punho de ferro.

Que não se estranhem mais reformas em catadupa, já que me parece que foram preparadas para que as primeiras obriguem a outras subsequentes. Exemplo, uma mulher para ser um activo, um vector económico da sociedade em que se insere (é para isso que lhe vão dar a Carta de Condução), não poderá ter constrangimentos em viajar sozinha, nem necessitar da autorização do “Tutor” para tal. Imaginem a quantidade de maridos e pais que se oporá a esta mudança, só com precedente na “Ocidental” Tunísia e Marrocos?

Guerra com o Iémen Houthi

Outro dos grandes constrangimentos da actual liderança saudita é a guerra que trava com o Irão, em território iémenita, o qual tem causado dano à Economia saudita. Exemplo, o Rial, atingiu um novo baixo esta semana. 1 Dollar compra agora 432 riais, quando comprava apenas 215 antes da guerra. Já se sabe que um dos ministros detidos é o da Economia, Adel Faqih. E bin Salman, precisa urgentemente de estancar esta sangria e os excessos de quem esbanja em tempos de guerra e, neste sentido, vejo neste capítulo da Guerra, o Objectivo Número Dois para estas detenções. Sendo o Objectivo Número Um a consolidação de Poder e assegurar a sucessão, o Objectivo Número Dois será o de congelar as contas bancárias dos “primos”, retirando-lhes o Poder que se baseia no dinheiro e, fazer destas colossais fortunas activos de guerra e de reforço à economia local.

MbS está-nos a deixar confuso, apenas porque está a ser consequente com as espectativas que tem criado e isso, somos nós que não estamos habituados a ver e por isso ficamos na dúvida estupefacta! Ninguém avança com esta audácia de forma inconsequente, pelo que o Regime deverá ficar ainda mais sólido, para bem de todos nós.

http://www.bragapiresraul.pt

Politólogo/Arabista/Colaborador VOA/Radar Magrebe

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