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Moçambique: um ano após o acordo de paz, analistas dizem que ela não é definitiva ainda


Filipe Nyusi e Ossufo Momade

Moçambique assinala esta quinta-feira, 6, o primeiro aniversário do Acordo de Paz Definitiva e Reconciliação Nacional com um sentimento comum, entre analistas, de que enquanto as questões de redistribuição da riqueza, desigualdades sociais e da auto-proclamada Junta Militar da Renamo continuarem a ser negligenciadas, a paz nunca será definitiva.

Moçambique: um ano após o acordo de paz, analistas dizem que ela não é definitiva ainda
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O acordo foi assinado a seis de Agosto de 2019, entre o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, e o líder da Renamo, Ossufo Momade, pondo fim a um longo período de violência armada, particularmente na zona centro do país.

A crise político-militar eclodiu em 2014, depois de a Renamo, o segundo maior partido da oposição, ter rejeitado os resultados das eleições legislativas, presidenciais e para as Assembleias Provinciais.

O sociólogo Moisés Mabunda diz ter reticências relativamente a uma paz definitiva porque há indicações de que os moçambicanos "não estão a conseguir reencontrar-se, porque a paz não depende apenas da assinatura de documentos, mas da forma como as pessoas vivem, partilham as preocupações e resolvem os seus problemas".

"Eu penso que nós não estamos em harmonia, há muita coisa que não está a andar bem, assinaram-se os acordos, mas a situação não está assim tão pacífica, porque há questões da redistribuição e partilha da riqueza, da reconciliação nacional e da transparência que devem ser resolvidas", sustenta Mabunda.

O bispo emérito da Igreja Anglicana de Moçambique, Dom Dinis Sengulane, lamenta que as pessoas continuem a sofrer, um ano depois do Acordo de Paz Definitiva e Reconciliação Nacional, sublinhando que era suposto que não houvesse quem andasse a fugir dum lado para o outro.

Por seu turno, o diretor do Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD), Adriano Nuvunga, considera que não se tem estado a dar a devida atenção ao fenómeno da auto-proclamada Junta Militar, "e pensar que este assunto se vai resolver por si próprio, é um grande erro".

O diretor do CDD diz que é necessária uma liderança firme para abordar o assunto da Junta Militar da Renamo duma maneira que veja a necessidade de os seus integrantes participarem também no actual processo de desmobilização, desmilitarização e reintegração, o chamado DDR.

Nuvunga avançou que "essa liderança deve, igualmente, ver até que ponto o DDR responde aos anseios e às grandes preocupações relativas ao processo moçambicano de democratização, não só deste grupo militarizado, mas também das pessoas que estavam representadas numa Renamo mais social e política mas que estão insatisfeitas com o DDR".

Para o presidente do Partido para a Paz, Democracia e Desenvolvimento (PDD), Raúl Domingos, "este acordo só poderá ser bem sucedido se tiver uma cobertura total daquilo que são as causas do conflito, e enquanto não tivermos a questão da auto-proclamada Junta Militar resolvida, a paz não será definitiva".

Na opinião daquele líder partidário, o problema da auto-proclamada Junta Militar tem duas dimensões, uma interna, da própria Renamo, e a outra que tem a ver com o próprio acordo, que os militares de Mariano Nhongo reivindicam não ser aquilo que o falecido líder da Renamo, Afonso Dhlakama, vinha negociando com o Presidente Filipe Nyusi.

"É preciso procurar-se saber o que é que falta nesse acordo que era do agrado deste grupo dissidente e que não consta do Acordo de Paz Definitiva e Reconciliação Nacional, e isso é assunto que diz respeito à Renamo e ao Governo", conclui Raúl Domingos.

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