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Kamala Harris procura fazer história por entre uma campanha presidencial confusa e dura


Kamala Harris

Kamala Harris, a companheira do ex-vice-presidente e candidato democrata à Presidência Joe Biden, fez carreira como Procuradora da Califórnia, Procuradora-geral e senadora dos EUA até chegar à candidatura ao segundo cargo mais poderoso do país.

Harris, a primeira mulher afro-americana e a primeira asiático-americana a ser indicada para a vice-presidência de um grande partido, disse durante a Convenção Nacional Democrata em agosto que ela e Biden partilham uma “visão da nossa nação como uma comunidade amada - onde todos são bem-vindos, não importa a nossa aparência, de onde viemos ou quem amamos.”

A dupla Biden-Harris foi forjada apesar das diferenças acentuadas entre os dois durante a temporada de candidatura à nomeação para as eleições presidenciais pelo Partido Democrata, no debate sobre relações raciais, forçar a integração racial das escolas e sobre o histórico de direitos civis de Biden como senador dos EUA por Delaware.

Joe Biden e Kamala Harris em debate a 31 de julho 2019
Joe Biden e Kamala Harris em debate a 31 de julho 2019

Ao aceitar a indicação do seu partido à vice-presidência após terminar a sua própria campanha presidencial, Harris pediu aos americanos que se unissem a ela na luta contra o racismo e a xenofobia. “Não existe vacina para o racismo. Temos que fazer o trabalho ", disse ela.

No entanto, a campanha presidencial que se seguiu foi por vezes dolorosa para uma mulher negra que procura fazer história política na terça-feira.

O Presidente Donald Trump referiu-se a Harris como “este monstro” numa entrevista no início de outubro, na manhã seguinte ao debate transmitido pela televisão entre Harris e o vice-presidente republicano Mike Pence.

Harris recusou responder, além de rejeitar o comentário do Presidente como "infantil", mas foi emblemático das barreiras raciais e de género que ela teve que enfrentar ao longo da sua carreira política, de acordo com os seus aliados e grupos de defesa de minorias. Biden respondeu, descrevendo os comentários de Trump de "desprezíveis" e "tão abaixo do cargo da Presidência".

Harris apresentou-se na convenção democrata como filha de imigrantes indiana e jamaicano. E comprometeu-se a trabalhar para tornar a América mais inclusiva após quatro anos do governo Trump, que ela descreveu como tendo dividido mais o país. Desde o final do verão, Harris passou o seu tempo cruzando o país para fazer campanha por Biden na sua missão para derrubar Trump e Pence. Numa paragem de campanha em Reno, Nevada, no final de outubro, ela pediu às pessoas que votassem e "lutassem pela promessa da América".

Kamala Harris em campanha a 1 de novembro 2020
Kamala Harris em campanha a 1 de novembro 2020

No palco do debate

Harris nem sempre teve a mesma perspectiva que o ex-vice-presidente Biden. Antes de se tornar companheira de Biden na corrida à presidência, Harris tentou ser ela a candidata presidencial democrata.

Um dos momentos mais dramáticos da campanha para a nomeação teve lugar no palco do debate em junho de 2019, quando Harris desafiou diretamente Biden, um dos líderes de longa data do partido, sobre as suas opiniões sobre as relações raciais frequentemente problemáticas da América - e o seu trabalho anterior no Senado dos EUA com legisladores com um passado segregacionista.

Com precisão exacta, Harris disse a Biden, duas décadas mais velho, "Foi doloroso ouvi-lo falar sobre a reputação de dois senadores dos Estados Unidos que construíram a sua reputação e carreira com a segregação racial neste país. E não foi só isso, mas também trabalhou com eles para se opor. Sabe, havia uma menina na Califórnia que fazia parte do segundo grupo de crianças a integrar as suas escolas públicas", continuou Harris, "e ela ia de autocarro para a escola todos os dias. E essa menina era eu."

Biden ficou chocado com o ataque e respondeu que só se opunha à integração racial por via de transporte forçado de crianças em autocarros escolares, por ordem do governo - embora ele próprio tenha trabalhado frequentemente como senador nas décadas de 1970 e 1980 para se opor ao autocarro escolar para desagregar racialmente as escolas.

Mais tarde, porém, desculpou-se pelos seus comentários sobre as suas relações de trabalho com legisladores sulistas com uma história duvidosa de igualdade racial. Agora, qualquer animosidade que pudesse ter sido gerada há mais de um ano no palco do debate dissipou-se. Depois de uma longa procura por um candidato à vice-presidência, Biden escolheu Harris, de 56 anos, menos de três meses antes da eleição nacional de 3 de novembro.

Perfil de Kamala Harris - candidata à vice-presidência dos EUA
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Saltando barreiras

A escolha de Harris por Biden fez história. Harris é a quarta mulher a fazer parte de uma dupla nacional de um grande partido, mas a primeira mulher afro-americana e a primeira asiático-americana.

As três mulheres anteriormente em duplas políticas nacionais nos EUA - duas candidatas à vice-presidência e a candidata presidencial democrata Hillary Clinton em 2016 - todas perderam. Se o dupla Biden-Harris vencer, Harris tornar-se-à na primeira mais alta responsável americana nos 244 anos de história do país.

Analistas políticos nos Estados Unidos assumem que Biden, que teria 78 anos se ganhasse e fosse empossado em janeiro de 2021, poderia servir apenas um único mandato de quatro anos, tornando imediatamente Harris uma das principais candidatas presidenciais democratas em 2024.

O encontro de Harris na fase final do debate em 2019 com Biden foi talvez o ponto alto da sua candidatura à nomeação democrata à presidência. Logo depois, a sua posição nas sondagens políticas nacionais foi a mais alta num campo lotado de candidatos.

Mas ela não conseguiu manter o ímpeto e, sem fundos para continuar a campanha, desistiu da corrida em dezembro de 2019. A sua saída ocorreu mais de um mês antes das primeiras eleições partidárias no Iowa, no início de 2020.

Observadores políticos dizem que Harris lutou para definir a sua candidatura, às vezes dizendo aos eleitores que as suas preocupações mereciam mais reflexão da sua parte, mas não ofereceu respostas imediatas.

Posições políticas

Harris tem posições de esquerda sobre a promoção do acesso aos cuidados de saúde nos EUA, proibição de armas de assalto, concedendo um caminho para a cidadania para imigrantes indocumentados e garantindo igualdade no local de trabalho para mulheres e homossexuais.

Mas a ala progressista do Partido Democrata dos EUA questionou a sua história como Procuradora dura em São Francisco e mais tarde como Procuradora-geral da Califórnia antes de ganhar o assento no Senado em 2016.

A certa altura, declarou: "Se carrega uma arma ilegal na cidade de São Francisco e o seu caso é levado ao meu escritório, vai passar um tempo na prisão. Ponto final." Em outra ocasião, disse: "Não é progressivo ser branda com o crime".

Ainda assim, para alguns, ela parecia ser uma contradição política, dizendo que não pediria a pena de morte para crimes que merecem a pena de morte na Califórnia, mas defendendo, contudo, a pena de morte do estado quando o estatuto foi contestado.

Mesmo assim, ela imprimiu uma nova energia política à candidatura de Biden à presidência, a terceira em um período de três décadas, mas a primeira vez como nomeado pelo partido.

Kamala Harris
Kamala Harris

Confrontando o poder

Como membro do Comité Judicial do Senado, Harris confrontou funcionários da administração Trump e recebeu a atenção da media pelas suas perguntas directas a dois dos nomeados conservadores do Presidente para o Tribunal Supremo, Neil Gorsuch e Brett Kavanaugh.

Durante as audiências de outubro para uma terceira juíza conservadora para o Supremo Tribunal, Amy Coney Barrett, Harris foi mais contida nas suas perguntas, enquanto senadora e candidata à vice-presidência.

Harris votou contra todos os três nomeados conservadores, assim como a maioria dos democratas, embora todos tenham sido confirmados pelo Senado para nomeações vitalícias para o mais poderoso tribunal do país.

Harris também é recordada por questionar duramente o Procurador-geral William Barr em maio de 2019, perguntando-lhe: "O presidente ou alguém na Casa Branca já pediu ou sugeriu que iniciasse uma investigação de alguém? Sim ou não, por favor, senhor." Barr não teve resposta imediata e ela subsequentemente pediu sua renúncia, sem sucesso.

Trump chamou o seu interrogatório a Barr de "desagradável", descrição que empregou novamente depois de Biden anunciar a sua decisão de escolher Harris para concorrer consigo à vice-presidência. Trump, que fez uma doação para a campanha de Harris na Califórnia para Procuradora-geral do estado há vários anos, também a chamou de "pior" e "mais horrível" e disse que ela tinha sido "desrespeitosa" com Biden nos seus ataques no debate em 2019.

Harris trabalhou em propostas de legislação politicamente bipartidárias com os republicanos. O senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, que apoia Trump, disse sobre Harris: "Ela é intransigente. Ela é inteligente. Ela é dura".

Harris diz que tem limites ao trabalhar em legislação baseada em ideologia, dizendo ao New York Times há um ano: "A política deve ser relevante. Este é o meu princípio orientador: é relevante? Não,‘ É um lindo soneto?'"

Harris e Biden conheceram-se há vários anos. Harris trabalhou em estreita colaboração com o filho de Biden, Beau Biden, nas questões em que o jovem Biden e Harris actuaram como procuradores-gerais estaduais. Beau Biden morreu de cancro no cérebro aos 46 anos em maio de 2015.

Harris disse que teve a honra de se juntar a Biden na dupla democrata nacional, dizendo no Twitter: "Joe Biden pode unificar o povo americano porque passou a sua vida a lutar por nós.”

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