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Angola: O ensino universitário em tempos de isolamento


À esquerda, Chocolate Brás, prof. da UNIA e do IMETRO, e Tiago Armando, prof. da UCAN

As aulas em Angola estão suspensas desde o dia 24 de março em razão das medidas de prevenção contra o coronavírus. Para saber como está a situação do ensino universitário conversamos com o psicólogo escolar Chocolate Brás, professor da Universidade Independente de Angola (UNIA) e do Instituto Superior Politécnico e Metropolitano (IMETRO). Também conversamos com Tiago Quissua Armando, psicólogo clínico e professor na faculdade de Ciências Humanas da UCAN, Universidade Católica de Angola, que deu dicas para os estudantes que estão em casa.

Brás ensina em duas instituições privadas e tem duas turmas em cada uma. No IMETRO leciona pedagogia e trabalha com aproximadamente 60 alunos, e na UNIA, onde dá aulas de psicologia de trabalho, tem cerca de 80 estudantes. Observando o que estava a acontecer no mundo e nos países lusófonos por causa do coronavírus, o professor começou a preparar-se no início de março.

Psicólogo escolar Chocolate Brás, professor da UNIA e do IMETRO
Psicólogo escolar Chocolate Brás, professor da UNIA e do IMETRO

"Do ponto de vista psicológico eu já tinha criado as condições fundamentais para mim a fim de garantir que tão logo se suspendesse as aulas eu tivesse os materiais fundamentais para garantir os níveis normais de aprendizado dos meus alunos, o que é um compromisso moral que tenho com eles".

Brás não só tomou uma decisão de princípio, mas também seguiu a orientação dada pelo Ministério de Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, o qual pedia que as instituições de ensino superior garantissem as condições fundamentais para que os alunos tivessem atividades letivas orientadas pelos professores. Criou grupos com as turmas no WhatsApp, Facebook e Google Classroom, onde envia "vídeo aulas", textos e artigos científicos, bem como orientações de diversos trabalhos que os estudantes devem cumprir durante o período de isolamento social.

A realidade do ensino à distância

Por meio de uma consulta feita com estudantes universitários para um estudo que irá analisar a implementação do ensino à distância, Brás contou que "pelo menos 70 por cento garantem que não têm nenhuma atividade letiva, o que vai ao contrário da orientação do Ministério do Ensino Superior".

As atividades que estão sendo desenvolvidas à distância ocorrem somente em algumas universidades privadas, por iniciativa dos próprios professores porque eles "entendem que é preciso ter uma atividade e porque também isso vai ter implicância no seu pagamento salarial".

Em tempos de coronavírus, qual é a situação do ensino à distância em Angola?
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Brás concluiu que não há atividades letivas nas universidades públicas. "Os professores do ensino público estão, digamos, despreocupados ora desprovidos de instrumentos fundamentais para garantir o ensino à distância, e os professores do ensino privado, já que devem ser pagos em função do seu trabalho, vão criando alternativas e soluções para garantir algum ensino por esta altura".

Desafios no ensino à distância

Como professor, os desafios que Chocolate Brás enfrenta estão ligados ao sinal da internet, já que ele utiliza plataformas digitais como a Google Classroom, Facebook e WhatsApp, as quais exigem uma internet rápida.

"E como deve ser do conhecimento geral em Angola, os serviços de telecomunicações são muito ruins, a qualidade do sinal não é boa, e o custo desse serviço é muito elevado".

Brás contou que alguns estudantes em suas turmas não têm computador, smartphone, nem acesso à internet.

Ele disse que os delegados de turma, que representam os alunos na relação com o professor e a instituição, têm feito downloads dos principais materiais e colocado à disposição em pen drives e hard drives que são distribuídos. No entanto, Brás destacou o problema da movimentação. Devido ao isolamento social que já está sendo feito há várias semanas, a entrega de pen drives e hard drives não tem ocorrido.

"Tenho pelo menos 20 a 30 por cento dos meus estudantes com os quais não consegui qualquer contato. O que prevejo fazer depois desse período é que eu tenha duas ou três semanas de aulas de recuperacão para garantir que aqueles alunos que não tiveram acesso à internet e aos materiais que estou disponibilizando possam ter o material e educação equitativa, porque sinto que o problema não é muito deles".

Brás disse que tem defendido nas redes sociais que o governo angolano dê acesso à internet gratutita pelo menos aos jovens. "Entendo que isso deveria ser feito nessa altura de isolamento social e estado de emergência".

Brás mencionou últimos pronunciamentos da comissão interministerial de combate à pandemia Covid-19 dizendo que foram feitos apelos às empresas para que sejam sensíveis à situação vivida com a epidemia.

"Até onde eu sei, a UNITEL disponibilizou um serviço de internet gratuita de até 200 megabites diários com algumas mensagens". No entanto, o professor que grava vídeo aulas de no máximo 15 minutos, explicou que o seu material gera pelo menos 100 a 150 megabites. Se contarmos que os os estudantes irão ao You Tube para assistir vídeos complementares e também vão ler artigos online, 200 megabites não são suficientes, disse Brás, que desconhece iniciativas dessa natureza por outras empresas.

Mensagem

Chololate Brás deixou uma mensagem dizendo que embora os angolanos gostem de contato e de estar juntos, agora é hora de fazer um sacríficio, porque se as pessoas se cuidarem estarão protegendo o seu bem maior, que é a vida.

"Nós temos a ferramenta principal para combater a propagação desse vírus, que é o isolamento social. É cada um ficar na sua casa. Obedecer as medidas preventivas que vem sendo anunciadas pelas autoridades, quer mundial quer nacional de saúde."

Dicas para os estudantes que estão em casa

Tiago Quissua Armando, psicólogo clínico e professor na faculdade de Ciências Humanas da UCAN, Universidade Católica de Angola, só dará aulas no segundo semestre, mas ele tem estado nas redes sociais oferecendo dicas para que os estudantes não fiquem acomodados e não percam tempo nas redes sociais.

Tiago Quissua Armando, psicólogo clínico e professor na faculdade de Ciências Humanas da UCAN
Tiago Quissua Armando, psicólogo clínico e professor na faculdade de Ciências Humanas da UCAN

O professor tem pedido para que os alunos sigam os programas que foram dados e sejam proativos. "Leiam revistas eletrónicas, baixem artigos, desenvolvam projetos e não caiam na preguiça, porque quando retomar o ano letivo ele vai ser muito corrido".

Armando, que também é autor da obra “Introdução à Metodologia de Investigação Científica,” tem dado dicas de como escrever artigos científicos, como desenvolver um projeto de pesquisa e de investigação científica.

"Também tenho feito alguns vídeos Live no Facebook, a dar dicas de como as pessoas podem aprender alguns idiomas durante o período de isolamento social, quais são os passos que devem seguir".

Tiago Quissua Armando também tem o blog do Kissua, onde escreve sobre Relações Internacionais e também dá dicas.

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