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Angola: jovem licenciado no exterior continua à procura da primeira oportunidade de emprego após dois anos de formatura


Bruno Buiti Vaidade, engenheiro de petróleo e gás

Bruno Buiti Vaidade, de 27 anos, concluiu a sua licenciatura na Universidade de Petróleo e Gás na cidade de Ivano Frankivsk, Ucrânia, em 2018. Desde então está à procura de uma oportunidade de trabalho em Angola.

Em entrevista à Voz da América, o engenheiro falou sobre a sua iniciativa de aparecer no dia 14 de outubro pelas ruas de Luanda vestido com o traje de licenciatura e tendo um cartaz na mão com os dizeres: “Preciso de Emprego. Sou formado em extração de petróleo e gás na Ucrânia. Por favor, me dê uma oportunidade!”

Foram três horas e meia de manifestação pelas as ruas de Luanda. Entre os pontos escolhidos pelo jovem estavam o prédio da Sonangol e do Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás.

Bruno Buiti Vaidade, engenheiro de petróleo e gás, à procura de emprego em frente pelas ruas de Luanda.
Bruno Buiti Vaidade, engenheiro de petróleo e gás, à procura de emprego em frente pelas ruas de Luanda.

"Desde que cheguei sempre enviei o meu currículo. Sempre bati às portas, mas sem sucesso".

Além de ser engenheiro de petróleo e gás, Bruno Vaidade também é artista. Ele se considera o salvador do kuduro desta geração e tenciona mudar a imagem negativa do género musical. Lançou o seu preimeiro EP "União dos Tourinos" em 2018 e tem um total de nove músicas no mercado musical. As mais recentes são "Reeducação", com a participação de WKing, e "Tenho Fé" com as participações de Rey Panda, DJ Naile & Lil Danix.

"Esse tempo todo que estou em Angola tenho sofrido bullying e críticas. Há muita gente que me desconhece e fala coisas desagradáveis sobre a minha pessoa, como por exemplo eu não quero saber da formação, só quero saber de música".

Kudurista Bruno Vaidade
Kudurista Bruno Vaidade

O engenheiro revelou que muito antes de tomar a iniciativa de ir as ruas ele já havia conversado com pessoas próximas e recebeu apoio, principalmente de jovens, licenciados e recém-formados como ele.

"Saí às ruas e não me arrependo de ter feito isso. Já estava consciente que haveria pessoas que se identificariam com a causa, e outros nem tanto. Desde já agradeço a todos que me ligaram para dar força e que prometeram fazer algo."

Vaidade não ficou surpreso que a sua foto viralizou rápido. Muitos políticos até partilharam a foto nas plataformas digitais, mas nenhum entrou em contato com o jovem engenheiro.

Bruno Buiti Vaidade é mais um rosto que faz parte de um grupo que só cresce em Angola: os licenciados sem oportunidade de emprego.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de desemprego no país aumentou no terceiro trimestre para 34%, 1,3 pontos percentuais em relação aos três meses anteriores (32,7%) e 3,9 pontos percentuais com relação ao mesmo período do ano passado (30,1%).

O engenheiro afirmou que o descontentamento entre os jovens é geral e mencionou que a criminalidade também aumentou, "porque há muitos jovens em casa, fechados, que não têm nada para fazer".

Experiência

Vaidade contou que recentemente recebeu um telefonema de um senhor que lhe perguntou se tinha alguma experiência. Bruno respondeu com uma pergunta. "É possível um recém-formado ter cinco anos de experiência se conseguir um estágio é quase impossível?"

A falta de oportunidade de estágios, bem como de vagas de empregos para recém-licenciados é um problema crónico em Angola, que vem acompanhado da prática de contratação de estrangeiros com vencimentos exorbitantes. Vaidade acredita que se a situação não mudar os recém-formados jamais terão o primeiro emprego. E desabafou: "É muito complicada a vida de um recém-formado".

O engenheiro acrescentou: "Tenho amigos que disseram que estão arrependidos de ter ido para fora se formar. Isso é muito triste porque esse tempo todo que estudaram com o dinheiro dos pais poderiam ter guardado aqueles valores e aberto uma pequena empresa, e talvez tivessem mais sucesso".

Licenciados e mal vistos

Vaidade contou que os jovens que estudam no exterior são mal vistos em Angola e recebem muitas críticas por voltarem para casa depois da formatura. O engenheiro já ouviu comentários de todo o tipo, como "preferia comer capim na Europa do que voltar a Angola," e "engenheiro sem visão, voltou para o sofrimento por quê?"

Vaidade revelou que já acreditou nas promessas de emprego do presidente João Lourenço, mas no momento isso não é mais possível já que nada de concreto beneficiou os milhares de jovens desempregados no país. Durante a entrevista, o engenheiro citou o fracasso da Feira de Oportunidades de Emprego, Estágio e Formação Profissional (FOEEFP) do ano passado e como os jovens foram humilhados."Foi lastimável."

Futuro

O engenheiro de petróleo e gás comentou o descontentamento geral da juventude com a atual situação do país e como os jovens estão se tornando revolucionários na internet. "A juventude é a força motriz de uma nação. E quando os jovens estão trancafiados em casa, trancafiados num quarto sem nada para fazer, é triste. Esse país é assustador!"

No entanto, Vaidade não perde a fé e acredita que as coisas vão mudar num futuro próximo. Ele desejou a todos os angolanos coragem, determinação, fé e foco que as coisas boas virão.

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