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Fogo cruzado entre jornalistas e Governo de Cabo Verde


Abraão Vicente

Profissionais repudiam comentário do ministro Abraão Vicente e analistas desdramatizam as posições

A Associação dos Jornalistas Cabo-verdianos (AJOC) afirma repudiar a atitude do ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, que tem a tutela da comunicação social, pelo facto de o governante ter considerado que eles interpretaram mal e fizeram “copy and paste” de uma notícia sobre o Relatório sobre os Direitos Humanos no Mundo 2018, divulgado pelo Departamento de Estado americano no que tange à liberdade de imprensa no arquipélago.

Jornalistas cabo verdianos repudiam comentário do ministro Abrão Vicente sobre a liberdade de imprensa
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Para a AJOC, a atitude do ministro manifesta um expressivo desprezo e uma profunda falta de respeito pelos profissionais de comunicação social.

Segundo o relatório do Departamento de Estado, durante o ano passado, a liberdade de imprensa em Cabo Verde foi beliscada.

O documento cita como exemplo o que aconteceu entre Abraão Vicente e a classe jornalística, na sequência de uma foto divulgada na sua página pessoal do Facebook em que o ministro aparece na régie da Televisão de Cabo Verde e com a escrita “estamos prontos para a transmissão do Carnaval do Mindelo”.

Autocensura

O Departamento de Estado diz que a imprensa privada funcionou de forma livre, mas chama a atenção para a autocensura, devido ao receio da perda de emprego.

Para o reitor da Universidade Jean Piaget e especialista em comunicação, Wlodzimierz Szymaniak, é normal haver pontos de vista diferentes entre o ministro e a AJOC, situação que, em seu entender, demonstra que há liberdade de pensamento de cada um.

Szymaniak afirma que o mais preocupante no reparo do relatório sobre a liberdade de imprensa prende-se com a questão da “ auto-censura”, facto que na sua óptica, deve merecer uma ampla reflexão dos jornalistas e da própria AJOC.

Por sua vez, o analista António Ludgero Correia considera que qualquer relatório internacional deve ser visto como elemento para se fazer a análise do que eventualmente não está bem para ser corrigido, assim como congratular-se com os elogios quando as coisas são positivas.

Correia entende que não fica bem ao Governo a posição que tomou sobre a questão e “pensa que nem o Departamento de Estado nem a Lusa têm algum interesse em por o nome do país em causa”.

Quanto à reacção da AJOC , “vejo isso com naturalidade na sequência das reacções, tanto do ministro tutela da comunicação social, como do chefe do Executivo”, realça Correia.

O relatório

O Relatório sobre Direitos Humanos no Mundo 2018, divulgado na sexta-feira, 20, destaca, como nos anos anteriores a prática da auto-censura por parte de jornalistas cabo-verdrianos, “aparentemente em grande parte devido ao desejo de manter os seus empregos”.

Entretanto, no relatório de 2018 referente ao ano passado, o Departamento de Estado nota que “em Março, o ministro da Cultura (que responde pela comunicação social) provocou protestos de profissionais da imprensa quando ele pediu aos velhos jornalistas que se afastassem. Ao mesmo tempo, ele falou sobre a necessidade de reduzir a imprensa pública e afirmou que a inovação é o futuro”.

O relatório narra ainda que o governante “apareceu durante uma transmissão na sala de controlo do canal de televisão estatal (tendo) os jornalistas rotulado essa prática como uma forma de intimidação, e a presidente do Sindicato dos Jornalistas pediu a sua renúncia”.

Entretanto apesar das posições extremadas, diz o documento, nenhum dos lados recuou e “o impasse acabou por desaparecer sem grandes mudanças na política”.

De forma específica, o documento, na sua introdução, diz que o Governo violou a liberdade de imprensa por parte do Governo, no original, em inglês “government infringement of freedom of the press”.

O Departamento de Estado destaca, no entanto, que em Cabo Verde “a imprensa independente (privada) foi activa, revelando uma ampla variedade de visões, sem restrições”.

Governo reage

A divulgação do relatório provocou reacções do Executivo que considerou ter alguma imprensa deturpado o documento.

O Governo disse ter recorrido a uma "especialista em língua" para marcar a sua posição.

Em nota, o Ministério da Cultura e Indústrias Criativas considera que "o relatório é taxativo ao afirmar que durante 2017 'a imprensa independente estava activa e expressou uma ampla variedade de opiniões sem restrições'. O relatório vai ainda mais longe ao afirmar que o Governo não restringe ou impede o acesso à internet, não censura os conteúdos online, e não existe nenhum relatório credível onde o Governo monitoriza as comunicações online privadas sem a devida autoridade legal”.

Ainda de acordo com a nota, o relatório ilustra "o grande activismo da imprensa livre em 2017".

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