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Cabo Delgado: Deslocados enfrentam "fome severa" no regresso a Palma


Metuge: Campo de deslocados do centro agrário de Napala. Distribuição de alimentos por PMA a deslocados da insurgência em Cabo Delgado. (Março 2021, arquivo)

Apesar da recuperação da vila pelas tropas, não há serviços, a especulação dos preços é astronómica e muitos deslocados dormem ao relento

Milhares de deslocados que regressaram à vila de Palma, na província moçambicana de Cabo Delgado, estão a enfrentar uma fome severa e a sobreviver com poucos recursos da última colheita, já escassa, uma situação que deixa o distrito, berço dos megaprojetos de gás natural, à beira de uma crise humanitária, disseram à VOA nesta segunda-feira, 13, várias fontes locais.

Cabo Delgado: Deslocados enfrentam "fome severa" no regresso a Palma
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Há um mês, o Governo anunciou o regresso seguro da população que tinha fugido do ataque mais visível dos jihadistas moçambicanos a 24 de Março, e que forçou uma paralisação geral do distrito, incluindo do projeto de gás, liderado pela Total.

Muitos dos que regressaram à vila sede de Palma dormem ao relento e ou em escombros das residências precárias ainda por reconstruir, numa localidade ainda com um rasto de destruição e sem serviços básicos, em virtude detodas as instituições estatais civis continuarem encerradas.

A vila, ainda sob total controlo de militares moçambicanos e do Ruanda, tenta se reerguer dos ataques, mas a escassez de alimentos – os poucos que existem no mercado são vendidos a preços exorbitantes – continua o maior desafio para uma população já sem poder de compra.

“Eu tinha fugido para Quitunda e quando regressei a vila de Palma há cerca de duas semanas, apenas encontrei militares e todos os edifícios do governo destruídos e fechados”, disse à VOA, Latifo Abdul, para a seguir lamentar “a dura situação da fome” que todos enfrentam.

A pouca colheita de mandioca e folhas de batata-doce no seu quintal, prosseguiu, é repartida entre os vizinhos “para enganar o estômago" enquanto esperam por uma intervenção das autoridades, uma espera que ele afiança pode se degradar em crise humanitária.

“Alimentam-nos de mandioca seca e folhas de batata, porque tudo devemos comprar e não temos dinheiro para comprar”, disse outra deslocada, Filomena Adão, lamentando que as crianças são forçadas a ter uma refeição por dia, e não raras vezes passam dias com fome.

Sem acesso à água potável e serviços de saúde, a população de Palma tem que percorrer quase 15 quilómetros para Quitunda, o bairro de reassentamento situado perto do porto de Afungi, e que chegou a acolher mais de 10 mil pessoas deslocadas num abrigo precário.

“A prioridade era termos o hospital, e deviam abrir a estrada (que liga Palma a Pemba) para movimentarmos à vontade e facilitar acesso às zonas onde vendem comida porque agora a comida está cara”, acrescentou Latifo Abdul, que destaca que o preço de produtos alimentares está insustentável para desempregados e sem trabalho a vista.

As autoridades de Saúde de Palma garantiram a reabertura do centro de saúde local esta semana, com serviços mínimos, como triagem de crianças e adultos e serviços materno-infantis, enquanto aguardam por obras de reabilitação das enfermarias para atender a casos que exijam internamentos.

O director distrital da Saúde, Vasco Baulene, explicou que a demora na reabertura dos serviços deveu-se ao saque e à larga destruição das infraestruturas hospitalares.

Bases desativadas

Fontes militares avançaram à VOA que após a recuperação da estratégica vila de Mocímboa da Praia e a “limpeza” em Palma, a força conjunta Moçambique e Ruanda está a avançar para desalojar as bases terroristas no sul de Mocímboa e no norte de Macomia, o que vai permitir o regresso da população, incluindo no distrito de Muidumbe.

Os três distritos, que experimentaram a invasão e ocupação mais longa dos jihadistas moçambicanos desde o início da insurgência em Outubro de 2017, são tidos como albergando as bases mais fortes dos insurgentes, parte dos quais já desativados.

Na semana passada a força conjunta assaltou a base de Siri 1 e Siri 2, tendo na primeira recuperado grandes quantidades de armamento, combustíveis, munições e viaturas de combate, que supostamente tinham passado para as mãos dos insurgentes no assalto ao arsenal estatal em Mocímboa da Praia.

Na base Siri 1, prosseguiram as nossas fontes, os combates foram mais intensos desde o inicio das operações da força conjunta, com os insurgentes a resistirem por uma semana, contudo a presença de forças especiais do Ruanda e a superioridade bélica garantiram a captura da base, que tinha muitos tuneis que permitiam a resistência dos jihadistas.

Controlo da estrada

O avanço rápido da operação conjunta junto à Estrada Nacional 380, a única alcatroada que liga Palma e Pemba, passando por Macomia e Mocímboa da Praia, permitiu a recuperação das aldeias como Xitaxi, Miangalewa, Chitunda, em Muidumbe e Chai em Macomia.

As forças ruandesas vão continuar com a responsabilidade dos distritos de Palma e Mocímboa da Praia, patrulhando inclusive a EM 380, a espinha dorsal para a economia dos distritos do norte de Cabo Delgado e do projecto de gás natural.

“Com a reabertura dessa estrada, pelo menos vamos ter fluxo de comida, porque garantir abastecimento via marítima com essas pequenas embarcações não vai ser sustentável e os preços vão manter altos”, completou Latifo Abdul.

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