segunda-feira, 01 setembro, 2014. 21:06 UTC

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Racismo à brasileira: Desigualdade social atrelada à questão racial

Afro descentes negros e brancos nunca viveram em condições igualitárias

Racismo à brasileira: Desigualdade social atrelada à questão racial
Racismo à brasileira: Desigualdade social atrelada à questão racial

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Nesta Semana da Consciência Negra, lembrada no Brasil até o próximo domingo, é recorrente a reflexão sobre o chamado “racismo à brasileira.”

A história tem mostrado que no país de maioria afrodescendente negros e brancos nunca viveram em condições igualitárias, mas, por outro lado, também não conviveram num regime de apartheid. Para especialistas, esse contexto dúbio levou o país a desenvolver um tipo de "racismo dissimulado". Pesquisas já mostraram que a grande maioria dos brasileiros admite a existência do problema no país. No entanto, essas mesmas pessoas afirmam não ter preconceito racial.

Para Edson Borges, professor do Núcleo de Estudos Afro Asiático da Universidade Cândido Mendes, os graves problemas vividos pelos afrodescendentes no Brasil fazem parte de uma complexa articulação desse racismo velado com as desigualdades sociais. “A desigualdade social brasileira ela está agarrada a diversos fatores: renda, moradia, condições de saúde. Mas, ela é estritamente associada á questão racial. O modelo brasileiro do racismo a brasileira é muito específico e tornou-se algo invisível, mas profundamente presente,” explica.

O analista lembra que o racismo dito “invisível” se constituiu dessa forma no Brasil por causa da história da escravidão no país: “Durante a própria escravidão, apesar das distinções, o negro foi integrado na sociedade em pequenas parcelas, dentro de pequenos núcleos pautados pela miscigenação. Então, por isso, nós tivemos a concepção de uma escravidão que teria um sentido mais benigno. Mas, o racismo, na verdade, pontuou a história brasileira o tempo todo.”

Edson Borges lembra que a diferença da concepção do racismo no Brasil fica mais evidente quando comparamos o modelo brasileiro com o americano e o sul-africano. “O modelo norte-americano é clássico porque também foi fundada uma sociedade escravista, mas com inspirações diferentes. Já retiravam o negro da própria condição de pessoa e o colocando á parte. Lá nós tivemos uma clara construção de “apartamento”, de separação e de políticos estatais de segregação. Isso também aconteceu no quadro sul-africano. Então esses dois quadros definiram claramente políticas de segregação envolvendo negros e brancos. No caso brasileiro, o racismo tornou-se invisível, como se o estado não tivesse participado.”

O estudioso lembra que toda a camuflagem da prática brasileira de discriminação contra negros tem sido, cada dia mais, percebida. Esse entendimento da forma como se dá a questão racial brasileira tem, inclusive, mudado a configuração da luta anti-racista no país, cada vez mais internacionalizada, contando pouco com apoio interno. “Essa luta tem conquistado poucos apoios entre os brancos brasileiros. Há uma grande dificuldade de que o branco, empresários, artistas, conjuguem uma luta conjunta contra o racismo á brasileira. Por causa exatamente daquela concepção reinante de que no Brasil o racismo pontual, individual e não estrutural não temos ainda um grande movimento cívico, e nem sei se um dia teremos, que lute contra o racismo à brasileira.”

O estudioso destaca, ainda, que a impossibilidade de camuflagem do grave problema no Brasil tem forçado avanços nos últimos anos, na área, sobretudo, nos governos dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e o presidente Luis Inácio Lula da Silva. “Torna, a nível internacional, cada vez mais difícil o Brasil negar a existência de um racismo devido a dados quantitativos envolvendo a população negra brasileira. Isso levou o governo Fernando Henrique Cardoso, em 2001, na Conferência de Durban, a assumir responsabilidade histórica frente ao racismo e também a necessidade de operar com políticas estatais que foram prosseguidas por Estados e Municípios”, afirma.

“Temos assistido a avanços e teremos um julgamento épico no Supremo Tribunal Federal (STF), no próximo ano, da questão da constitucionalidade ou não das ações afirmativas, principalmente, nas universidades públicas brasileiras,” lembra Edson Borges.  “Outro ponto que eu destacaria é o aprofundamento e a organização a nível nacional e internacional dos movimentos sociais negros brasileiros se mobilizando para buscar apoios internos e externos para políticas contra o racismo a brasileira.”

Lembrando que a Semana da Consciência Negra no Brasil é marcada pelo Afro XXI, evento que vai reunir, em Salvador (BA), de amanhã (17) até o próximo domingo (20), diversos líderes da sociedade civil, de governos e parlamentares de países ibero-americanos e africanos. O evento faz parte das últimas comemorações do Ano Internacional dos Afrodescendentes, como foi definido este ano de 2011 pela Organização das Nações Unidas (ONU).

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