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Tete: Mortes na explosão de camião realçam a pobreza

  • André Baptista

Familiares das vitimas da explosão, Tete

Familiares das vitimas da explosão, Tete

“Queria dinheiro para comprar milho e farinha para dar de comer à minha família,” relato de um sobrevivente.

No final de sábado, dia 19, o número de vitimas mortais da explosão do camião cisterna em Tete havia subido para 68.

A maioria são jovens. Há também mulheres grávidas e crianças. Morreram tentando tirar combustível do camião cisterna.

Na localidade, a VOA viu um ambiente que realça a pobreza no distrito rico em carvão mineral.

Os funerais decorrem com apoio do governo e organizações sociais.

Caphirizhange, onde ocorreu o incidente, resume-se em centenas de minúsculas palhotas construídas de bloco de argila e cobertas de capim. Poucas têm cobertura de chapas de zinco.

Falta tudo, apesar da proximidade com a cidade de Tete – pouco mais de 60 quilómetros. A população, com uma maioria jovem, deambula pelos atalhos de terra branca e pedra na esperança de encontrar oportunidades de negócios. Emprego, não há.

A agricultura é uma possibilidade, mas faz tempo que não chove. Vender combustível obtido junto de camionistas que desviam na rota para o vizinho Malawi tem sido um negócio lucrativo. Outros jovens produzem carvão mineral.

“Muitos foram lá tirar combustível para ganhar dinheiro”

Adelino Biquilone, líder do povoado de Nhacathale, o local exacto da explosão da cisterna, usa duas palavras para explicar a tragedia: “Fome e pobreza”.

Contudo, Biquilone, que perdeu um genro e um neto na explosão, não concorda com essa postura e diz que tudo acontece porque ninguém mais liga para os valores morais.

“Muitos foram lá tirar combustível para ganhar dinheiro. Era uma oportunidade para conseguirem dinheiro para comprar comida (…) pais e filhos envolveram-se e morreram”, conta Maria Nhampenza, que perdeu uma irmã no incidente.

Supinho Laissone, que mora na zona, confirma: “É fome. Muitos vieram também roubar combustível”. Laissone sabe que os revendedores de combustível prometiam pagar “um bom preço”.

Ranito Tapuleta sobreviveu, e confessa que “queria dinheiro para comprar milho e farinha para dar de comer à minha família”. Se tivesse conseguido, o litro sairia a 50 meticais , contra os 60 do circuito habitual.

Muitas famílias terão de comprar recipientes para conservar água, pois tudo o que foi levado para a cisterna ficou carbonizado

Reforço e dificuldades na saúde

Em Caphiridzange, o posto de saúde já não faz penso aos sobreviventes, por falta de material e a lavagem das feridas é feita na base de sabão, conta uma sobrevivente, que não precisou de ser transferida para a cidade de Tete.

No Hospital Provincial de Tete não havia capacidade atender dezenas de pacientes com queimaduras complexas. O ministério da saúde reforçou aquele hospital com 11 médicos vindos de Maputo, a capital do país, entre eles dermatologistas, cirurgião plástico e um legista.

Tete, funeral das vitimas

Tete, funeral das vitimas

A ministra da administração estatal e função pública, Carmelita Namashulua, que assistiu, no dia 19, o enterro de 22 vítimas, manifestou-se solidária com as famílias

O Governo montou uma tenda e oferece alimentação aos familiares das vítimas.

O Conselho de Ministros decidiu após o incidente decretar luto nacional de três dias e a realização de uma investigação.

Há indicações de que o fogo na cisterna terá sido desviada para a candonga do combustível, terá sido causado por um curto-circuito da motobomba que drenava combustível para os bidons, tendo uma das secções do tanque ficado carbonizado, o que chamou atenção a vários moradores, que também viram a oportunidade.

Após a fuga do motorista e o descontrolo da situação, a população começou a baldear da segunda secção do tanque o combustível, que mais tarde viria a pegar chama, matando de imediato 43 pessoas.

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