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Viúvas da guerra: As marcas psicológicas da insurgência


Delfina Zubaire, 28 anos, vítima da insurgência em Cabo Delgado. O seu marido foi decapitado

Delfina Zubaire tentava juntar partes do corpo do seu marido para enterrá-lo, mas atacantes não permitiram que o fizesse

Muaziza Adrisse, 38 anos, se emociona ao lembrar a forma barbara como foi decapitado seu marido na aldeia de Ngorongoro, para onde se tinham refugiado no dia em que a sua vila natal, Mocímboa da Praia, foi assaltada e sitiada por insurgentes no ano passado.

“Eu só fico a chorar, até agora, eu choro” lamenta à VOA a deslocada, que não teve tempo de enterrar o marido, para fazer escapar os cinco filhos do casal e mais dois sobrinhos que fugiam agarrados aos seus braços.

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A VOA entrevistou Muaziza Adrisse, a 18 de Março, seis dias antes do seu abrigo ser destruído no campo de deslocados de Boa Viagem, durante o assalto e ocupação da vila de Palma por insurgentes supostamente filiado ao Estado Islâmico e localmente conhecidos por Al-shaabab.

“A vida aqui é dura” observa Muaziza Adrisse, entre relatos de fome e insegurança em Palma, que vive uma tragédia após o ataque mais visível do grupo jihadista desde o inicio da insurgência em 2017.

O ataque a Palma, a capital do mega-projecto de gás natural em Moçambique, provocou a morte de civis, incluindo estrangeiros, destruição de edifícios públicos e uma nova vaga de deslocados.

A situação fragilizou ainda mais a imagem do governo moçambicano, no dia em que a petrolífera Total anunciava a retoma das atividades, após meses de suspensão, no seu projecto bilionário de gás natural liquefeito na península de Afungi.

A violência jihadista em Cabo Delgado está a provocar uma grave crise humanitária e de direitos humanos com quase 700 mil deslocados e 2.600 mortes, metade delas civis, de acordo com a agência americana de coleta de dados Armed Conflict Location and Event Data (ACLED).

Mais a sul de Palma, no campo de deslocados de Impire, distrito de Metuge, Delfina Zubaire, 28 anos, vive as piores perturbações desde a decapitação do seu marido em Cagembe (Quissanga) em Maio de 2020.

O professor primário foi capturado e decapitado por insurgentes quando regressava de Nacati, numa viagem arriscada - devido a presença e ataques massivos dos jovens jihadistas na via - para reabastecer com alimentos a família.

Um dia depois da sua execução, Delfina Zubaire, tentou enterrar o corpo do marido sob a proteção da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), da Polícia moçambicana, mas enquanto juntava as partes do corpo foram atacados pelos insurgentes, mas saiu ilesa.

“Decapitaram a cabeça e abriram a barriga. Eu desconfio que tenham levado parte da garganta e outros órgãos, e as partes genitais do corpo não achamos e desconfio que tenham levado” contou à VOA Delfina Zubaire.

“Eu fiquei totalmente perdida, só fico a chorar. A única coisa que me aparece agora eu choro”, acrescentou Delfina Zubaire.

Ela agora divide emoções e partilha abrigo no campo de deslocados de Impire com Mariamo Yassine, outra “viúva da guerra”, que também teve o marido decapitado durante um ataque em Bilibiza.

Outros parentes de Mariamo Yassine que tinham escapado os tiros e as catanas no continente, morreram afogados num naufrágio, quando tentavam fugir dos ataques para Pemba.

“Quando ouvi isso eu fiquei em choque. A pensar nas crianças, a pensar no marido que nos sustentava, fazia portas e vendia e nós conseguíamos o sustento. Agora tenho uma sobrevivência à rasca” disse à VOA Mariamo Yassine.

As marcas psicológicas do conflito agora estão mais visíveis no campo de deslocados de Impire, onde dezena de mulheres sofre perturbações mentais devido aos fortes traumas da guerra.

“As pessoas que estão com problemas mentais aqui são nove. Elas viram seus maridos serem catanados, viram seus filhos a morrerem catanados. Quando pensam que brincavam com os filhos, agora nestes dias não têm filhos, não têm marido, sofrem estes traumas” explicou Rodrigues Adamo, que lidera o bairro de reassentamento de Impire.

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