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Testemunhas dizem que "homens de uniforme" estão a executar civis em Cabo Delgado


Macomia, Cabo Delgado, Moçambique

Caso mais recente terá acontecido em Litamanda, Macomia, quando oito mulheres que participavam num ritual fúnebre foram mortas

Homens de uniforme militar são suspeitos de terem morto oito mulheres da mesma família que participavam de um ritual fúnebre, três dias após o enterro de um parente na aldeia Litamanda (Macomia), em Cabo Delgado, contaram à VOA várias fontes locais.

Testemunhas dizem que "homens de uniforme" estão a executar civis em Cabo Delgado
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Os corpos foram encontrados na semana passada numa machamba (campo agrícola), numa zona onde continua refugiada a maioria da população, depois dos sucessivos ataques às suas aldeias, que culminou, há um ano, com a tomada da sede distrital de Macomia, por grupos de insurgentes.

“Foram nas machambas encontraram esse grupo da população estava numa cerimónia de falecimento, eles mataram todos aqueles que estavam aí, em Litamanda”, contou à VOA Abiba Suhali, uma moradora de Macomia.

Abiba revelou que no dia da execução das mulheres encontrou com um grupo de militares estatais entre as aldeias Zambézia e Quinto, não distante do local onde um miliciano (polícia comunitário) foi decapitado igualmente na semana passada.

Num contacto telefónico com outro militar da subestação de Macomia, prosseguiu Abiba, este viria a confirmar que “não foram malfeitores que fizeram aquilo, mas nossos colegas que fizeram isso lá, é que mataram essas pessoas, não são malfeitores”.

Outra fonte, citando um parente das vítimas, contou que um grupo de militares terá “vasculhado” as machambas supostamente a procura por suspeitos de integrar grupos insurgentes, no dia em que foram encontrados os corpos das mulheres ao redor do túmulo de um ente querido.

As mulheres tinham sinais de terem sido executados a tiros.

“Não é acusação, é verdade mesmo”, disse outro morador em anonimato sobre as circunstâncias da morte das mulheres.

“Estão a perseguir nas machambas, estão a encontrar e estão a deletar (matar) as pessoas. Estão a queimar a comida e casas”, acrescentou.

A maioria da população naquela região refugiou-se nas machambas após ficar encurralada com os ataques de grupos insurgentes e manteve até então.

Agora as zonas onde estão refugiadas são supostamente alvo de buscas pelas Forças de Defesa e Segurança em perseguição a focos de insurgentes.

“Essa guerra aqui é complicada", frisou outro morador, em alusão a insegurança da população diante das duas partes em conflito.

Outros relatos

A VOA contactou o porta-voz do Comando Provincial da PRM em Cabo Delgado, através do número habitual de comunicação com a imprensa, mas sem resposta, e o Ministério da Defesa Nacional (MDN) não respondeu ao nosso pedido de comentário enviado por e-mail e mensagem de texto para o telemóvel.

Outros relatos de moradores à VOA apontam para a morte de 30 civis só este mês em Macomia, executados nas matas por homens de uniforme militar, supostamente durante as “vasculhas” em zonas remotas, onde se suspeita esteja concentrada muita população que tem dificuldades em encontrar formas de chegar em zonas seguras de Cabo Delgado.

No seu relatório publicado em Março, sobre o conflito que continua a devastar Cabo delgado, a Amnistia Internacional relembrou que centenas de civis foram mortos ilegalmente em Moçambique pelo grupo armado conhecido localmente como “al-shaabab”, pelas forças de segurança governamentais e por uma empresa militar privada contratada pelo governo.

A insurgência tornou-se visível a partir de 2017 e já provocou a morte de mais de 2.500 pessoas, segundo o projecto de registo de conflitos (ACLED), outras 800 mil fugiram das suas zonas, de acordo com o Governo moçambicano.

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