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O feriado de Juneteenth: Continuação de um debate amargo sobre escravatura e relações raciais nos EUA


O presidente Joe Biden assina a lei criando um eriado feral Juneteenth

“As grandes nações abraçam os seus erros”

O congresso americano aprovou na semana passada transformar o dia 19 de Junho num feriado federal. O dia conhecido pela comunidade africano-americana como Juneteenth marca a data em que o general Gordon Granger, anunciou no Texas, em 1865, que todos os escravos tinham sido libertados.

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Em 1863, o Presidente Abraham Lincoln tinha declarado a emancipação dos escravos mas a guerra civil continuava e tendo em consideração as distâncias e dificuldades de comunicação essa proclamação só foi dada a conhecer nesse 19 de Junho na cidade de Galveston no Texas em 1865.

Desde então – e em maior ou menor escala – a data tem sido celebrada pela comunidade africano-americana mas permanecia mais ou menos ignorada pelo país no seu todo.

A proclamação do feriado de Juneteenth foi aprovada por todos os senadores depois de na Câmara dos Representantes ter contado com apenas 14 votos de oposição, todos eles Republicanos o que por si só é uma ironia histórica se tivermos em conta que Abraham Lincoln, o Presidente que aboliu a escravatura, era um Republicano.

Senador Republicano John Cornyn, Representante do Texas
Senador Republicano John Cornyn, Representante do Texas

O Senador Republicano John Cornyn votou a favor da adopção do feriado e explicou na cadeia de televisão MSNBC porquê.

“Todos viram isso como sendo um gesto simbólico importante e um meio de se abraçar pessoas de raças diferentes”, disse o Senador que disse pensar que “isto é algo que todos os americanos devem celebrar”.

A adopção deste feriado surge contudo num momento difícil nas relações raciais nos Estados Unidos com intensos debates sobre a igualdade ou falta dela dentro dos Estados Unidos.

Os debates cobrem os mais diversos aspectos dessas relações: Há ou não igualdade de oportunidades, é isso suficiente, é a escravatura algo peculiar aos Estados Unidos e continua a ter impacto no presente, como compensar pelos actos de descriminação do passado, que história deve ser ensinada nas escolas e nas universidades, que estátuas devem existir e quais devem ser derrubadas.

São debates muitas vezes amargos que se dão também numa altura em que a chamada política de identidade se faz sentir, isto é em que interesses de grupo se sobressaem muitas vezes ao indivíduo, reflectindo um fenómeno cada vez mais americano em que a história tem agora um hífen como em história italo-americana (Italian-american), história asiática-americana (Asian-American) , história dos negros dos estados Unidos (Black-American History).

Por outras palavras, se no passado a América era o “melting pot”, a panela onde todas as culturas se derretiam para formar uma identidade americana hoje fala-se mais de um bolo ou uma pizza composta por diferentes fatias de diversos ingredientes.

Há que dizer que nos anos da década de 1960, aquando dos debates sobre os direitos cívicos dos cidadãos negros americanos a intensidade desses debates foi tão ou senão mesmo mais amarga do que agora.

É interessante notar que a última vez que foi decretado um novo feriado federal foi em 1983, quando o então Presidente Ronald Reagan aprovou o feriado que honra o líder dessa luta dos anos '60, Martin Luther King.

Pensava-se talvez que isso marcava o fim de um debate com os direitos cívicos dos negros americanos garantidos por lei.

Mas a verdade é que se a escravatura foi o pecado original dos Estados Unidos, criados no princípio da igualdade, redimir esse pecado mostra-se mais difícil do que se poderia desejar.

O Presidente Joe Biden teve contudo palavras sobre a questão reconhecendo a dificuldade do debate:

“Grandes nações não ignoram os seus momentos mais dolorosos, abraçam-nos”, disse o presidente para quem “as grandes nações não viram as costas, aceitam que foram cometidos erros”.

“Quando lembramos esses momentos começamos a reconciliarmo-nos e ficamos mais fortes”, acrescentou Biden afirmando ainda que “não é simplesmente suficiente comemorar Juneteenth" porque “ao fim e ao cabo o fim da escravatura dos negros americanos não marcou o fim da luta pela promessa de igualdade, assinala apenas o princípio”.

“Para honrar o verdadeiro significado de Juneteenth temos que continuar a caminhar para essa promessa porque ainda não chegamos lá”, acrescentou o presidente Joe Biden que no que diz respeito à necessidade de se confrontar os erros do passado disse algo que sem dúvida se aplica a todos os países, onde a história é muitas vezes uma mistura de mitologia e factos.

Houve alguém que uma vez disse que num país como a América que nasceu em contradição - liberdade numa era de escravatura - haverá para sempre um debate, uma luta sobre o significado da sua história

Nas estátuas que enchem as ruas de Washington, dos seus fundadores, George Washington e Thomas Jefferson, a Abraham Lincoln passando por Martin Luther King aprendemos que a caminhada da independência aos direitos cívicos foi longa, dolorosa e sangrenta.e que todo o processo de reconciliação é sempre um processo que pode parecer sem fim.

Portanto o debate vai continuar.

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