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Insurgência em Cabo Delgado: Maria Rachide, uma de muitas mulheres com a vida interrompida


Maria Rachide sobrevivente de um ataque do grupo insurgente em Pemba, Cabo Delgado, Moçambique

“Pedimos ao nosso governo para tirar aqueles homens”, diz vítima de insurgentes em Cabo Delgado


Maria Rachide preparava-se para atender o primeiro parto do dia da mulher, 7 de abril, quando chegaram, ao Centro de Saúde de Muatide, em Muidumbe, rumores de que os insurgentes acabavam de invadir a aldeia.

Ela largou tudo e correu para casa. Pensava apenas em salvar a família.

Quando chegou à casa, o marido já tinha reunido os seus quatro filhos e dois sobrinhos órfãos da insurgência. Não houve tempo para diálogo, pois os disparos do grupo armado já se ouviam a meio quilômetro. Puseram-se em fuga. Em sentidos opostos.

Insurgência em Cabo Delgado: Maria Rachide, uma de muitas mulheres com a vida interrompida
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Com a Maria, fugiram a filha ao colo e dois sobrinhos. Por três dias, esconderam-se numa mata, sem o que comer ou beber. No quarto dia, à saída do esconderijo, descobriram plantações de mandioca, colheram e comeram.

Nesse dia, já sem o som de disparos, a enfermeira e outros deslocados caminharam até às suas casas. O cenário era lastimável – casas, lojas e instituições distritais queimados.

“Quando regressei à casa, não conseguia localizar uma das minhas crianças. Voltei para a mata. Desesperada, tive energia para gritar o seu nome. Ela apareceu e retomamos a nossa fuga”.

Maria Rachide partilha os tristes momentos constrangida. Diz que não quer por nada que aquilo volte a acontecer, nem ao seu pior inimigo.

“Comecei a caminhar pela mata com as crianças, mas ouviam-se disparos numa aldeia vizinha. Estávamos cansados e pernoitamos no mato. Saímos no dia seguinte cedo e caminhamos em direção a Mueda. Pelo caminho, um táxi-moto levou-nos, mas não chegamos ao destino, porque lá haviam muitos soldados que podiam complicar,” conta Maria.

Depois de mais dias de sofrimento, chegaram a Pemba, a capital de Cabo Delgado. Na casa da irmã estão outras 28 pessoas, grande parte fugiu da insurgência em Macomia.

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“Guerra invisível”

Não muito diferente é a situação do professor Martins Ninta, hoje também forçado ao desemprego e total dependência, em Pemba.

“Nós fomos bem atacados” diz Ninta, de 42 anos. Na fala, acentua “bem atacados” para expressar a gravidade do ataque, que resultou na captura temporária, a 25 de março, da vila de Quissanga.

Ninta, a esposa e o neto estavam na vila sede, quando o lugar foi invadido por um grupo de insurgentes, a uma hora da madrugada, que vandalizada tudo o que via pela frente.

“Nós já tínhamos nos antecipado, fugindo para os mangais, nas proximidades da praia. Daí cada um se arranjava; uns fugiam para Ibo, outros fugiam para Quirimba; outros, com condições, apanharam o barco para Pemba,” diz o instrutor do centro de formação de Bilibiza.

A sua viagem forçada a Pemba foi de barco à vela, uma das tantas embarcações precárias e muitas vezes com a lotação acima da capacidade. No caso, eram 50 pessoas num barco para 20.

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Malária, Coléra, Coronavírus

“A guerra invisível,” tal como diz, afastou-o da sua vila e dos seus alunos. Hoje é dependente da ajuda em casa de familiares que pouco têm para sobreviver.

Longe do conforto das suas pacatas vilas, Maria e Martins agora enfrentam riscos de saúde numa cidade de Pemba com um histórico de malária e cólera. A situação é agravada pelo novo coronavírus.

Dos mais de 80 casos positivos de coronavírus que Moçambique tem, cerca de 60 foram detectados em Cabo Delgado. Este ano foram registados 610 casos de cólera e 12 óbitos. A malária é endémica.

Em dois anos e meio, a insurgência matou 1100 indivíduos. Mais de 160 mil tornaram-se deslocados internos.

Ajuda alimentar

Pemba é hoje o lugar mais seguro de Cabo Delgado, daí que acolhe a maioria dos que fogem dos distritos mais vulneráveis aos ataques. Mas os sobreviventes buscam mais do que a segurança. Precisam de alimentação e abrigo condigno para não pressionar os seus familiares.

A Caritas Diocesana, organização de caridade da igreja Católica, apoia os deslocados da insurgência em Pemba, e manifesta preocupação com o número crescente.

“O grande fenómeno que nós vimos, na medida em que estamos em confinamento social, é que os agregados familiares multiplicaram-se; um lugar (pequeno) com mais de 20 pessoas, com o fenómeno do coronavírus, não é o ideal, e isso nos preocupa muito”, disse à VOA o padre católico da Diocese de Pemba, Latifo Afonso.

Devido à restrições de acesso e insegurança, em abril a assistência humanitária do Programa Mundial Alimentar (PMA) alcançou apenas 39.500 beneficiários com cestas alimentares de família, de um universo de 95 mil pessoas (19.000 famílias), nos distritos de Pemba, Metuge, Nangade, Macomia, Palma, Mueda e Montepuez.

A 7 de abril, o PMA perdeu para os insurgentes 116.6 toneladas de cereais, leguminosas e óleo vegetal em Mahate (Quissanga), no primeiro caso documentado, em que grupos armados invadiram um armazém, sem causar danos humanos.

“Qualquer comida não entregue diretamente à populações vulneráveis é uma perda para o apoio humanitário” disse à VOA James Lattimer, director interino do PMA em Moçambique, assegurando que “o roubo não impedirá o PMA de continuar a prestar assistência alimentar às comunidades necessitadas”.

Lattimer disse que a Organização das Nações Unidas em Moçambique está a mobilizar recursos para responder às necessidades dos mais vulneráveis forçados a fugir dos seus locais de residência pela insurgência e face à epidemia de cólera e pandemia da Covid-19.

Os deslocados não querem viver o resto da vida dependentes da ajuda. Querem paz para retornar às suas vilas.

“Pedimos ao nosso governo para tirar aqueles homens ou fazer uma ação, aqui na cidade estamos cheios; o governo não vai conseguir sustentar todas as famílias”, diz o professor Ninta.

Esta é a terceira reportagem de uma série sobre a insurgência em Cabo Delgado

Parte I: Insurgência em Cabo Delgado: Governo está a combater "sem conhecer a dimensão real do inimigo", diz bispo de Pemba

Parte II: Insurgência em Cabo Delgado: Ver pessoas decapitadas, "hoje é normal"

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