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Governo e empresários embaraçados na cadeia produtiva e milhares de angolanos à fome


Fábrica de farinha de trigo, Lobito

Em fase de carência de produtos da cesta básica, o Governo angolano lamenta a falta de projetos realistas na cadeia produtiva, mas operadores privados rejeitam o ónus de um problema a afetar milhares de famílias no país.

Nem mesmo o programa de apoio ao crédito (PAC), criado para dinamizar a produção interna e abrir caminhos para as exportações, está a desatar o nó que embaraça as autoridades e o sector empresarial privado.

A fuba de milho, a base da alimentação dos angolanos, chega a custar 800 kwanzas, contra os 100 kwanzas que o cidadão desembolsava por cada quilograma.

Não haverá exemplo mais consistente para ilustrar o que analistas chamam de falência da cadeia de produção, visível nas declarações da comerciante Luísa António, vendedora de produtos diversos num mercado informal.

‘‘Acho que não teria necessidade de estar assim muito elevado, o quilo de milho está caro. Também o feijão, o arroz e o açúcar. As pessoas reclamam, mas por causa da fome acabam por comprar’’, indica a vendedora.

Agarrado ao Prodesi, o muito falado programa de incentivo à produção nacional e substituição das importações, o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), tutelado pelo Ministério da Economia, acena com mais de 300 mil milhões de Kwanzas para o crédito.

O problema, segundo o diretor do seu gabinete de fiscalização, Bonifácio Sessa, é que o setor privado não apresenta projectos realistas e financiáveis.

‘’Ainda há poucos projetos aprovados. Há necessidade de os bancos comerciais procederem à aprovação de projectos e remeterem ao BDA, que vai dar cobertura a uma certa percentagem’’, explica aquele gestor.

A empresária Ana Sofia Garrido, que representou a Associação Comercial de Benguela num recente frente-a-frente com quadros do Executivo angolano, assinalou que a falta de estabilidade cambial é um problema a ter e conta, lembrando que os últimos cinco anos empobreceram a classe.

‘’Se recorrermos ao banco, para quem vamos produzir? Neste momento, a população não tem poder de compra, e atenção que o Estado é o maior empregador. E qual é o salário mínimo? Os nossos principais clientes são os angolanos, só depois a exportação, podemos ter problemas sociais’’, comenta a Garrido.

Governo e empresários procuram acertar agulhas em nome do combate à fome, fenómeno que assola mais de 23% de angolanos – conforme a ONU -, quando se sabe que a importação de bens como frango, óleo de palma, farinha de trigo, açúcar e arroz, no mês de Janeiro, absorveu 63 milhões de dólares americanos.

Dados oficiais indicam que os alimentos pressionam as reservas internacionais líquidas, estimadas em 10 mil milhões de dólares, metade do que existia há alguns anos.

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