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Falta de algodão suspende produção em fábrica de Benguela


Futuro da indústria têxtil em Angola em debate

A fábrica têxtil Alassola, na província angolana de Benguela, interrompeu a produção de fios de algodão por falta de matéria-prima, devendo retomar a actividade com a opinião pública focada no desperdício de 65 milhões de dólares no projecto agrícola que deveria ter sido implementado no Sumbe.

Alguns especialistas consideram que o relançamento da produção de algodão em Angola não passaria nunca pelo projecto que encalhou na capital do Kwanza Sul, enquanto outros referem que o contexto internacional desaconselha o regresso a uma cultura sem valor para a economia.

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Com a produção limitada a fios de algodão, comercializados em Portugal, quando as metas iniciais incluíam lençóis, toalhas e cobertores, a Alassola, um investimento de 480 milhões de dólares, deve ser alimentada pelo algodão feito em Benguela.

A posição é de José Severino, presidente da Associação Industrial Angolana (AIA), manifestada à VOA pouco antes das férias forçadas para os mais de 100 trabalhadores, que devem ser levantadas só quando houver matéria-prima, provavelmente daqui a três semanas.

“Era utopia pensar que servisse as três indústrias têxteis que foram reconstruídas. Benguela tem de viver do algodão que era feito no município do Cubal e Luanda pelo Kwanza Sul, mas não este projecto. Foi concebido na base de gasóleo barato, a bombear de baixo para cima. Depois, os terrenos são pobres, gastam muito em fertilizantes e tem declive, pelo que a água pode contaminar o rio, do rio depois vai para o mar e também contamina’’, adverte o industrial.

Questionado sobre o futuro da indústria têxtil em Angola, com a fábrica do Kwanza Norte também inserida, critica o que considera de egoísmo de sectores que pretendiam lucrar com a importação do algodão.

“Ainda está muito na importação do algodão, é necessário que haja valor acrescentado, porque tem de ser bem medido. É uma forma de começar, mas é absurdo no país não se ter fomentado o algodão a montante deste projecto das têxteis, é um erro. As pessoas fizeram para ganhar dinheiro na importação e depois transformar o algodão’’, critica Severino.

Já o jornalista João de Almeida, especialista em questões económicas, lembra que a cultura está a ser deslocalizada dos principais produtores mundiais, os Estados Unidos e a Índia, e sublinha que o algodão não traz valor acrescentado para a economia nacional.

“Porque essa cultura é agressiva para os solos, para o lençol freático, e toda a actividade agrícola, principalmente as famílias camponesas… eventualmente até podem trabalhar no desenvolvimento do algodão, mas ficam expostas a problemas de saúde. Eu acho que, até do ponto de vista das vantagens competitivas e comparativas, o algodão não é essencial para a economia angolana. Angola pode comprar o algodão e fazer os tecidos que quiser aqui no país’’, comenta o Almeida.

Apesar das várias tentativas, a VOA não conseguiu obter um pronunciamento do presidente do Conselho de Administração da fábrica Alassola, Tambwe Mucaje, mas soube que a falta de matéria-prima é um problema conjuntural, que afecta as outras fábricas.

No Kwanza Sul, infra-estruturas de apoio ao projecto e campos preparados foram abandonados por alegada dívida fiscal, estando em risco uma parceria público-privada que exigiu do Estado angolano um enorme esforço financeiro.

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