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Bipolaridade, um romance em “Sinfonia em Claro-Escuro”


Elsa Fontes, socióloga e escritora cabo-verdiana

Elsa Fontes aborda o tema numa obra em espaços e experiências compartilhados entre a sua terra natal, Cabo Verde, Angola da sua infância e Portugal da juventude

“Sinfonia em Claro-Escuro” é um título que sugere uma obra virada para música, mas não é. É um romance. Um romance em que a personagem principal, Luzia, num determinado momento passa a ser Elsa. Um romance que pode parecer ficção, mas também é um testemunho.

É uma obra que aborda um problema muitas vezes lateral, nas esferas do debate público, mas que ocupa um lugar central em quem o enfrenta e que, na maior parte dos casos, não sabe como enfrentá-lo e noutros, nem o enfrenta.

A bipolaridade é um transtorno cerebral que causa mudanças incomuns no humor, na energia, nos níveis de actividade e na capacidade de realizar as tarefas do dia-a-dia.

"Sinfonia em Claro-Escuro”, obra de Elsa Fontes
"Sinfonia em Claro-Escuro”, obra de Elsa Fontes

Este é o tema da obra “Sinfonia em Claro-Escuro”, da cabo-verdiana Elsa Fontes, quem através desse romance procura “tirar para fora do armário” pessoas que possam enfrentar esse transtorno e levá-las a desfrutar a vida.

Fontes nasceu em São Vicente, Cabo Verde, mas tem a alma partilhada também com Angola e Portugal.

Passou parte da sua infância em Luanda, "os melhores anos da minha vida" e a sua juventude em Lisboa, onde se licenciou em Sociologia e fez o mestrado em Estudos Africanos e Desenvolvimento sócio-económico, antes de regressar a Cabo Verde.

A obra durou sete anos a ser feita.

Ante a pergunta “porquê este romance", Elsa Fontes enumera: “por não ter um debate na esfera social, porque sofro esse transtorno e pretendo passar a minha experiência a outros que sofrem o estigma e o preconceito e porque quero abrir o armário a outras comunidades”.

Luzia, personagem do romance, aborda o seu percurso, a sua infância em Angola, os seus estudos em Portugal, o seu reencontro com a terra natal, Cabo Verde, “as suas paixões, a carga que leva devido ao estigma".

“Até que tiro a máscara e a Luzia sou eu, Elsa, e falo na primeira pessoa”, explica a autora, que dá a cara para falar desse transtorno que afecta milhões em silêncio.

Por isso, na conversa com a VOA, Elsa Fontes, explica a sinfonia: “claro, o lado do sol, da energia, da hiperactividade, e o lado escuro, da lua, da tristeza, da depressão”.

Socióloga de formação, ela aborda vários aspectos da doença, como, por exemplo, o suicídio, com uma análise do ponto de vista sociológico, mas também com a sua própria experiência “por ter tentado” tirar a própria vida.

“O livro tem um carácter pedagógico, é a experiência de vida de uma bipolar que quer ajudar outros a seguirem em frente, com apoio medicamentoso, psicoterapias, vida regrada e muito apoio da família e dos bons amigos”, resume Elsa Fontes, quem, actualmente, vive sem problemas com a bipolaridade, que está controlada.

A autora garante ser possível superar o transtorno e assegura que “a vida vale a pena, é bela, e mais vale a jornada do que o destino”.

“Fiz a minha catarse com este romance”, sublinha Elsa Fontes, quem diz ser fruto de muitas transições, percursos e alterações que me envolvem, quer endógenas, quer exógenas”.

O livro está disponível desde Março na Amazon e nas livrarias de Cabo Verde, mas a autora pretende traduzi-lo para o inglês e chinês, "e assim chegar a muita gente que precisa".

No próximo dia 27, o livro será apresentado na ilha natal da autora, São Vicente, no Centro Cultura do Mindelo.

Outras obras

Como investigadora e socióloga, Elsa Fontes colocou sempre ênfase em temas de difícil abordagem, nomeadamente o bairrismo, o comportamento da juventude e a bipolaridade.

Nas duas primeiras obras por ela lançadas, '' O Bairrismo em Cabo Verde Santiago - São Vicente'', em 2007, e ''Juventude Caboverdeana: Bairrismo - Um caso de resistência à Educação Não Formal'' em 2016, este no âmbito do Curso Avances en Informacion e inovacion del professorado, pela Universidade de Extremadura, Badajoz, Fontes aborda o conflito de identidades regionais e aprofunda os seus estudos investigando comportamentos da camada jovem Caboverdeana nele inseridos.

Ouça a entrevista:

Bipolaridade, um romance em “Sinfonia em Claro-Escuro” - 10:00
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