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Aumento dos preços de combustíveis pode sacrificar as famílias mais pobres em Moçambique


Filas em bomba de gasolina, na capital moçambicana, Maputo. Moçambique, Janeiro 2017

Rede de Alerta Antecipado de Fome deu o aviso e economistas sublinham que sem medidas do Governo os mais desfavorecidos vão sofrer

A Rede de Alerta Antecipado de Fome (FEWS, na sigla em inglês) diz que o aumento de 12 por cento e 15 por cento nos preços da gasolina e gasóleo, respectivamente, anunciado em Março pelo Governo moçambicano deverá fazer aumentar o custo de vida e desacelerar a recuperação económica, principalmente para as famílias urbanas pobres.

Economistas dizem que a falta, da parte do Governo, de uma perspectiva de lidar com a situação resultante da subida do preço dos combustíveis, sobretudo a ausência de um plano para a potenciação do sector produtivo, fará com que o impacto desta decisão seja maior na economia e nas famílias empobrecidas.

António Francisco diz que "isso já está a acontecer porque sinto que da parte do Governo, não há uma perspectiva de lidar com esta situação criada pela guerra da Ucrânia; nós ainda não saimos da pandemia e já estamos a prepararmo-nos para uma situação imprevisível com o impacto desta guerra".

Aquele economista anota haver pessoas que "pensam que isto não tem nada conosco, mas eu penso que já estamos a ser afectados, produtos como cereais e combustíveis já estão afectados, e a posição do Governo é deixar andar como sempre fez em relação à nossa própria guerra, sabemos hoje mais sobre a guerra na Ucrânia do que a nossa".

Para Francisco, a atitude do Governo "é de tapar o buraco quando ele aparecer, como faz, geralmente, com as estradas e outras infraestruturas, porque neste momento, não se sabe o que é que realmente está a ser feito no sentido de acautelar as situações que possam vir a afectar as famílias e a recuperação económica".

Mais medidas são necessárias

António Francisco criticou ainda as medidas tomadas pelo Banco de Moçambique para evitar a inflação "porque acabam por colocar o aperto à população, procurando manter a estabilidade do próprio Governo e da actividade pública, mas não do sector privado".

"Não se veem medidas que possam permitir que a actividade produtiva recupere depois da pandemia, as pessoas vão recuperar porque deixarão de ter as restrições que tiveram, mas isso depende da capacidade de cada família e do sector privado, porque da parte do Governo não parece que haja facilitação no sentido de estimular mais a actividade produtiva", aponta aquele economista, numa altura em que se prevê uma descida da produção agricola em Moçambique, relativamente a anos anteriores, por causa de tempestades e cheias, apesar do discurso oficial de que é preciso criar resiliências.

"Agora só se fala de criar resiliências, mas não nada nesse sentido", sublinha António Francisco que apela o Governo a não criarobstáculos à recuperação da actividade turística, de restauração e mesmo da actividade informal, que por causa da pandemia tiveram muitas restrições".

Por seu turno, o também economista João Mosca defende que o Governo deve adoptar medidas que possam produzir resultados consistentes porque as actuais não estão direccionadas para o sector produtivo.

Ele sinaliza que "há muita inércia neste país, e tudo segue na mesma, sem que a agricultura tenha medidas para o desenvolvimento da sua actividade e da sua escala de produção, principalmente a produção alimentar, 85 por cento da qual é produzida pelo sector familiar".

Aumentos de preços

O preço do pão poderá subir no país, devido ao aumento nos preços globais do trigo, e isso deverá reduzir o poder de compra das famílias, com todas as consequências daí resultantes.

Refira-se que o aumento nos preços já fez com que em algumas cidades moçambicanas os transportes colectivos parassem temporariamente as operações em protesto contra o aumento dos custos operacionais.

O sociólogo João Colaço diz que a forma como os aumentos são feitos pode ser uma indicação de que há uma ruptura do contrato social entre o Estado e a sociedade.

"É preciso que seja projectada uma estratégia de longo prazo para a gestão das oscilações dos preços dos combustíveis, "defende aquele académico.

Entretanto, o economista Roberto Ubisse considera que numa economia tão pequena como a de Moçambique é difícil antecipar muitas coisas, "mas seja como for, pode-se fazer qualquer coisa, dentro das suas limitações orçamentais".

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