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A história do genocídio na Namíbia


Presos herero durante a guerra na Namibia (Foto de arquivo)

Governo alemão concordou em investir mais de 1,3 mil milhões de dólares como compensação depois de aceitar ter havido genocídio na sua antiga colónia

No dia 12 de Janeiro de 1904 um grupo de combatentes herero em cavalos entraram na pequena cidade de Okahandja a norte de Windoek fundada por elementos dessa tribo e dos Nama, e mataram 123 pessoas a maior parte alemães.

Foi um ataque que iria resultar nos meses e anos seguintes num dos maiores massacres da história da colonização de África e que resultou no quase desaparecimento da etnia herero e no massacre também de milhares de namas por forças alemãs cujo país controlava o chamado Sudoeste Africano Alemão desde 1884.

Um relatório das Nações Unidas publicado na década de 1980 descreveu as acções alemãs contra os hereros e namas como um dos primeiros actos de genocídio do século vinte, algo que o governo alemão acaba de aceitar pela primeira vez.

Com efeito, foi anunciado esta semana que o governo alemão aceitou em investir mais de 1.300 milhões de dólares na Namíbia durante 30 anos como compensação pelos massacres que o governo alemão aceitou ter sido um acto de genocídio e pelo qual pediu desculpas ao povo da Namíbia

O porquê da revolta

Ironicamente a presença alemã no território tinha sido alcançada através de acordos com dirigentes herero envolvidos em conflitos locais com outras tribos como os nama e mesmo entre si. Conflitos esses que levaram no final do século XIX as autoridades alemãs a lançarem operações militares contra os nama e a fortalecerem a sua posição militar no território.

A colonização alemã foi então marcada pela confiscação de terra e gado que no último caso tinha um papel de extrema importância na cultura pecuária dos herero e também por crescentes restrições à sua liberdade e cultura.

O chefe Samuel Maherero educado por missionários Luteranos e que assinou um acordo com os alemães para o apoiarem numa luta pelo trono de uma das tribos da região, e cujos antepassados se tinham aliado aos alemães contra os nama, foi quem organizou a revolta.

Face à crescente expansão alemã e crescentes casos de abusos por parte dos colonizadores, Maherero que viria a morrer no exílio na Bchuanalandia (hoje Botswana) organizou o ataque a Okahandja dando contudo ordens específicas para as suas tropas não matarem “ingleses, boers, mulheres, crianças ou missionários alemães”.

Os alemães sofreram uma série de derrotas iniciais, incluindo a destruição de uma companhia militar alemã perto de Otiaronge e a revolta alastrou-se rapidamente para o norte.

O administrador Theodor Leutwein foi substituído como dirigente militar por Lothar von Trotha cujo nome ficaria para sempre ligado ao genocídio dos hereros e namas.

Com von Trotha vieram 15.000 soldados alemães com artilharia e metralhadoras pesadas.

A 11 de Agosto de 1904 na batalha de Waterberg os alemães inflingem uma pesada derrota aos hereros e os sobreviventes juntamente com as suas famílias fogem para o deserto.

Von Trotha depois emite uma ordem afirmando que “qualquer herero encontrado dentro das fronteiras alemãs com ou sem arma, com ou sem gado será morto a tiro”.

Tropas alemãs mataram centenas de pessoas – homens, mulheres e crianças - envenenando também poços de água.

Dezenas de milhares de hereros morreram de fome e sede antes das ordens do comandante militar terem sido anuladas em Berlim e ainda persiste a controvérsia se o governo alemão tinha dado ordens que se limitaram a ser implementadas por von Trotha. Este foi contudo condecorado pelo imperador alemão Wilhelm II.

Existem também documentos que mostram que o chefe de Estado Maior das Forças Armadas alemãs tinha sublinhado numa carta a necessidade de se eliminar “toda a nação (herero) ou expulsá-los do país", embora o governador Leuwein se tenha oposto a isso.

Estima-se que a população de 80.000 hereros foi reduzida para entre 15.000 e 25.000.

A revolta dos nama

Os nama iniciaram a sua revolta contra os alemães em 1905, um ano depois do início da revolta herero. Usando tácticas de guerrilha, os nama estiveram em combate com os alemães durante mais de dois anos. O seu líder Hendrik Witbooi foi morto em 1905 num ataque a uma coluna alemã, mas os nama continuaram a lutar até 1907 quando o seu líder de então Jacob Morenga foi morto e quando ambas tribos se encontravam à beira da extinção total.

Cerca de dez mil namas de uma população de apenas 20.000 morreram.

Hereros e namas que sobreviveram foram levados para campos de concentração e depois destes terem sido encerrados foram espalhados pelo território como força de trabalho.

Os hereros foram forçados a usar um dístico de metal com um número de identificação e proibidos de possuirem gado.

No conflito, os alemães perderam 676 soldados em combate e outros 689 morreram de doença. Outros 76 foram dados como desaparecidos.

O fim da presença alemã

Em 1915 durante a primeira guerra mundial tropas sul-africanas, actuando em nome do governo britânico ocuparam o território pondo fim à ocupação alemã de curta duração mas de enorme impacto na história da Namíbia que se tornou independente em 1990.

Em Outubro de 2007, familiares do General von Trotha deslocaram-se à Namíbia a convite de chefes dos hereros e, numa cerimónia, pediram desculpa pelas acções do seu antepassado.

“Nós da família von Trotha, estamos profundamente envergonhados pelos acontecimentos terríveis que ocorreram há 100 anos quando os direitos humanos foram violados de forma grosseira”, disse a declaração.

Agora, foi a vez do governo alemão reconhecer o crime e aceitar em pagar através de investimentos cujos pormenores permanecem por decidir.

O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão disse que o seu país irá oficialmente a partir de agora considerar esses actos “na perspectiva de genocídio” tendo apresentado oficialmente desculpas à Namíbia e aos descendentes das vítimas.

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