terça-feira, 09 fevereiro, 2016. 15:38 UTC

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    Egipto: Morsi é Anúncio de Nova Era Política

    No seu primeiro discurso ao país como presidente-eleito, Morsi ofereceu uma visão de inclusão

    Ana Guedes

    Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, foi eleito presidente do Egipto. A vitória do grupo islâmico após décadas de repressão dá início a uma nova etapa no drama central da política egípcia dos últimos 60 anos – que opôs e opõe a Irmandade muçulmana aos militares.

    No seu primeiro discurso ao país como presidente-eleito, Morsi ofereceu uma visão de inclusão – em contraste com a campanha azeda de onde emergiu vitorioso.

    O primeiro presidente egípcio eleito livremente apelou aos egípcios – muçulmanos e cristãos – a apoiarem o projecto da Irmandade para o renascimento nacional. Morsi prometeu lutar contra o sectarismo e o que descreveu como “tentativas” para destruir a unidade do país.

    A desconfiança que se apoderou de todo o Egipto durante a campanha prolongou-se durante o longo período de espera que antecedeu o anúncio da vitória de Morsi. Uma multidão tensa de apoiantes de Morsi na praça Tahrir irrompeu em celebração com o anúncio dos resultados

    Milhares gritavam o seu júbilo, de bandeirinhas na mão, enquanto o fogo-de-artifício iluminava o céu do Cairo assinalando a vitória.

    A declaração de que Morsi obtivera 51.7% lançou o Egipto num caminho impensável com o seu antecessor. Em tempos preso político, durante o regime do deposto presidente Hosni Mubarak, Morsi, de 60 anos, tornou-se no seu substituto.

    Mas a presidência é agora uma posição mais fraca do que aquela a que Morsi concorreu. O conselho governativo militar egípcio arrecadou para si os poderes executivos bem como o controlo legislativo depois de dissolver o parlamento que era dominado pela Irmandade Muçulmana.

    O anúncio do vencedor pôs cobro a uma semana de tensão durante a qual os resultados foram adiados quando a comissão recebeu queixas de fraude eleitoral de ambas as partes. Morsi e o seu rival, Ahmed Shafiq, tinham reivindicado vitória no princípio da semana e muitos viam na espera um período de jogo de poder entre a Irmandade e o conselho militar sobre o balanço do poder no Egipto após a eleição.

    O conselho Supremo das Forças Armadas - que tem dirigido o país desde a queda de Mubarak com o levantamento do ano passado - prometeu entregar o poder à liderança civil no final deste mês. Mas as suas acções dos últimos dias colocam em dúvida se cumprirá a promessa. Segundo o antigo candidato presidencial Abdullah al Ashall “o conselho está a testar a determinação popular, a tentar encontrar uma forma de regressar ao poder.”

    Os apoiantes de Morsi prometem ficar na Praça Tahrir até que os militares devolvam alguns dos poderes que arrecadaram para si. O presidente-eleito formou uma frente de unidade nacional com os secularistas, liberais e alguns dos activistas que estiveram na génese da revolução no ano passado em desafio à possível continuidade da dominação pelos militares.

    Morsi abdicou também das suas posições na irmandade Muçulmana fazendo jus à sua promessa de formar governo de inclusão.

    Apesar do agora derrotado candidato Shafiq ter dito que aceitaria os resultados, continuam as dúvidas sobre como alguns dos seus apoiantes podem reagir. Muitos mostram-se receosos do crescente islamismo naquela que tem sido uma das mais tolerantes sociedades árabes.

    Os analistas dizem, por outro lado, que a história da política egípcia aponta, entretanto, para que nos próximos meses se assista a uma luta pelo poder entre Morsi, o presidente-eleito, e os militares.

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