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"Tempestade perfeita" no mercado petrolífero abala Angola

  • João Santa Rita

Angola OPEP Petróleo

Angola OPEP Petróleo

Autor de livro sobre indústria do petróleo diz que vários factores combinam para a queda de preços e não há saída imediata

Angola foi apanhada numa “tempestade perfeita” de vários factores que afectam o mercado de petróleo e para a qual não tem saída imediata, disse Flávio Inocêncio, autor do livro “A Organização dos Países Exportadores de Petróleo: O caso de Angola”.

A obra foi inicialmente publicada em Portugal e é lançada nesta quinta-feira, em Luanda.

Em entrevista à VOA, Inocêncio, professor nas universidades Agostinho Neto e Católica, disse que a adesão de Angola à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) deu ao país a oportunidade de ter um voto na questão das quotas de produção de petróleo de modo a regulamentar o preço nos mercados internacionais.

O sistema de quotas – Angola limita a 1.900.000 barris por dia - tem, contudo, “um custo”, nomeadamente o de dissuadir companhias petrolíferas de investirem mais por não querem ser afectadas por limites de produção.

O académico fez notar que a descoberta de mais petréolo e o sistema de “fracking” nos Estados Unidos abalaram o mercado petrolífero.

“Cerca de 80% de excesso de petróleo no mundo vem da América do Norte”, revelou Flávio Inocêncio, lembrando que o preço do crude começou a cair em Junho de 2014 quando surgiu um excesso de oferta desse “shale oil” na América do Norte.

“Metade da produção petrolífera nos Estados Unidos é de petróleo não convencional”, disse, acrescentando que essa produção está, por outro lado, a “tornar-se cada vez mais eficiente”.

“Os ganhos de eficiência são incríveis, o que significa que se está a tornar mais barato com cada ano ou mês que passa o `shale oil´”, acrescentou.

O autor lembra que em Novembro de 2014, numa reunião da Opep esperava-se um corte de produção para fazer face a esse excesso mas isso não ocorreu devido à oposição da Arábia Saudita e dos países do Golfo.

“A Arábia Saudita e os Estados do Golfo lideram têm uma estratégia de quota de mercado, que prefere aumentar a quota de mercado a ter preços altos no mercado mundial”, explicou Inocêncio, acrescentando que, na opinião desses países, preços altos fazem mudar hábitos de consumo para fontes energéticas mais baratas pondo em perigo a procura de petróleo a longo prazo.

Estes países têm enormes reservas de petróleo - “os sauditas têm 26 vezes mais petróleo do que Angola em termos de reservas provadas”, diz – e querem que o petróleo continue a ser relevante com preços baixos.

“Neste momento a Arábia Saudita tem 700.000 milhões de dólares de reservas, além do dinheiro investido noutros países” pelo que, segundo Flávio Inocêncio, “podem dar-se ao luxo de seguir uma política de preços baixos durante algum tempo”.

Essa tática visa também combater a produção de "shale oil" na América do Norte e todos estes factores combinam numa "tempestade perfeita" dos mercados petrolíferos

“Em Angola apanhamos por tabela esta tempestade perfeita e estamos a sofrer com algo que não depende de nós”, acrescentou o professor, fazendo notar ainda que os custos de produção de petróleo em Angola são altos por serem na esmagadora maioria ao largo da costa (“off-shore”).

“A curto prazo não vejo grandes alternativas para Angola”, concluiu o autor.

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