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25 de Abril: um património de todos

  • Alvaro Ludgero Andrade
  • Amancio Miguel

Revolução dos Cravos, Portugal

Revolução dos Cravos, Portugal

Em tempos de atentados à liberdade, pensadores dizem que ideais de Abril têm de ser conhecidos.

No dia em que se assinala mais um aniversário da Revolução dos Cravos, que derrubou o regime fascista em Portugal em 1974 e abriu caminho às negociações para a independência das então colónias portuguesas em África, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa considerou que "felizmente, quanto aos grandes objetivos nacionais, há um larguíssimo acordo entre os portugueses", que decorre do 25 de Abril.

Nos países africanos de língua portuguesa, no entanto, a efeméride não tem sido assinalada e há leituras diferentes.

Na verdade, há leituras diferentes e algum desconhecimento, como disse à VOA, o escritor e encenador João Branco, filho de pais portugueses e radicado há mais de 20 anos em Cabo Verde.

João Branco, escritor e encenador

João Branco, escritor e encenador

​Para ele, a mais linda revolução dos dois últimos séculos tem de ser mais conhecida e estudada, principalmente agora quando “tudo é justificado à base da violência, da repressão, do terrorismo, da repressão que é justificada pelo terrorismo”.

É inconcebível que no mundo em que a informação circula com tanta facilidade, “não haja um conhecimento muito maior sobre o que foi a Revolução dos Cravos porque ela nos traz não só um sentido muito claro da liberdade, mas também uma forma poética e concreta”, de acordo com Branco, para quem o 25 de Abril "é um farol", 42 anos depois.

No caso de Cabo Verde, onde vive, aquele homem do teatro lamenta haver tão pouco conhecimento do 25 de Abril, principalmente por parte da juventude, que desconhece "quão importante a Revolução foi para a conquista da independência” das ilhas e das demais antigas colónias.

Património de todos

O investigador e filósofo moçambicano Severino Elias Ngoenha, por seu lado, considera um erro que a efeméride não seja assinalada em Moçambique, assim como é errado Portugal assumir a Revolução de Abril como um evento que apenas lhe diz respeito.

Severino Elias Ngoenha, filósofo e professor universitário moçambicano, Creative Commons

Severino Elias Ngoenha, filósofo e professor universitário moçambicano, Creative Commons

Com a crescente oposição interna, pressão internacional e derrotas militares na então Guiné, Angola e Moçambique, o 25 de Abril acontece e, para Ngoenha, “Portugal não pode deixar de considerar a contribuição dos combatentes pela independência, nem os nossos países esquecer que o que aconteceu lá teve um peso no desfecho do processo das independências”.

Na conversa com a VOA, o também professor associado do Departamento de Antropologia e Sociologia da Universidade de Lausanne, na Suíça, defende uma “reflexão descomplexada sobre o 25 de Abril”.

João Branco também considera a Revolução dos Cravos um grito de liberdade de portugueses e dos combatentes pela independência nas então colónias em África, e destaca também outros lutadores como “aqueles que tiveram de fugir de Portugal e usaram outras armas”, entre eles o pai dele, José Mário Branco, compositor da canção “A cantiga é uma arma”.

Mensagens

Entre os países africanos de língua portuguesa, apenas o Presidente de Cabo Verde tornou pública a mensagem que enviou ao seu homólogo português pela vitória da "liberdade sobre o autoritarismo", como escreveu.

Jorge Carlos Fonseca disse querer "cumprimentar o povo português pela coragem e determinação disponibilizadas na luta pela dignidade do ser humano e contra o fascismo", que permitiram uma vitória que foi "crucial para as então colónias, na medida em que acabou por funcionar como um catalisador na luta pela autodeterminação e independência, conduzida pelos respectivos movimentos de libertação, fazendo com que as independências acontecessem mais cedo".

O chefe de Estado cabo-verdiano considerou, ainda, que o 25 de Abril acabou por se tornar "um pouco património de todos".

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