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Obscurantismo e ignorância, causas da perseguição a albinos em Moçambique

  • Alfredo Júnior

A opinião é de curandeiros e especialistas.

O obscurantismo e a ignorância são apontados como as principais causas da perseguição a albinos em Moçambique e em alguns países do continente africano.

Médicos tradicionais moçambicanos (curandeiros) dizem que essas prática começam a ganhar proporções alarmantes no país devido à presença massiva de praticantes de medicina tradicional provenientes de outros países, nomeadamente dos Grandes Lagos.

Em 2015, segundo dados apresentados recentemente pela Procuradoria-Geral da República, 13 pessoas albinas morreram e outras 51 foram atacadas.

Até Junho de 2016, a Associação Amor à Vida, que defende os direitos dos portadores de albinismo, contabilizou 10 casos de rapto e morte de albinos.

Apesar destes números representarem um decréscimo comparativamente a 2014, ano em que foram reportados os primeiros casos, os raptos e assassinatos continuam e os portadores de albinismo atribuem a autoria destas acções s praticantes de medicina tradicional.

"Regista-se nos últimos dias acções de raptos e assassinatos de pessoas portadoras de albinismo alegadamente a mando de praticantes de medicina tradicional, para fins obscuros", disse representante da Amor à Vida.

Do seu lado, a Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique distancia-se destas acusações e Sandra Juca aponta o dedo à presença massiva de curandeiros provenientes de outros países.

"O praticante de medicina tradicional pede ao Governo que crie mecanismos de controlo para a entrada de outros médicos tradicionais estrangeiros, de modo a serem identificados e se conheça a sua conduta moral e social porque são eles que colocam dísticos publicitários, bandeirolas ao longo das estradas, distribuem panfletos nas ruas nos centros comerciais para angariar clientes", revelou Sandra Juca.

Quem também subscreve este posicionamento é o Instituto de Medicina Legal que diz que a prática de curandeirismo em Moçambique não existe a cultura de usar partes de corpo humano.

"Esta não é prática cultural em Moçambique, não há cursos de medicina tradicional em que se introduz esta matéria, onde se diz que para a pessoa ter bens, ficar bem na vida ou acontecer alguma coisa de bem terá que usar ossadas ou pedaços de corpos de pessoas que é para fazer a sua vida", defendeu Felisbela Gaspar.

A província de Nampula, norte do país, foi a que registou mais casos de ataques a pessoas albinas, 29, incluindo mortes.

A seguir, surgem a Zambézia, com sete, e de Cabo Delgado, com cinco, em 2015.

Esta semana vai a julgamento mais um caso em Nampula e a Liga dos Direitos Humanos predispõe-se a apoiar as vítimas e suas famílias, como disse o advogado da organização, Tarciso Abibo.

"Vamos perseguir os processos em tribunal, até ao julgamento", assegurou Tarciso Abibo.

O Governo moçambicano promete apertar o cerco a este crime e levar os seus autores à barra da justiça, garantiu o porta-voz do Conselho de Ministros, Mouzinho Saide.

Um relatório independente publicado em Março por Ikponwosa Ero, especialista sobre os direitos das pessoas com albinismo, incluu Moçambique na lista dos sete países com mais crimes registados contra estas pessoas em África.

Ele revela também a existência de um "mercado lucrativo e macabro" no continente, onde se chega a pagar dois mil dólares por um membro ou 75 mil dólares pelo "corpo completo".

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