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Morreu Aristides Pereira


Aristides Pereira, num comício, em Cabo Verde, nos anos 70

Aristides Pereira, num comício, em Cabo Verde, nos anos 70

Dirigente histórico de Cabo Verde será sepultado terça-feira na ilha da Boavista.

Aristides Pereira, o primeiro presidente da República de Cabo Verde morreu quinta-feira em Portugal, nos Hospitais da Universidade de Coimbra, depois de ter sido operado pela segunda vez, no espaço de um ano, a uma fractura no colo do fémur.

Aristides Pereira, que contava 87 anos de idade e era diabético, fundou com Amílcar Cabral, em 1956, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e foi presidente de Cabo Verde, desde a sua independência em 1975, até 1991.

O actual presidente cabo-verdiano, Jorge Carlos Fonseca, decretou cinco dias de luto nacional. As cerimónias oficiais fúnebres de Aristides Pereira vão ter lugar segunda-feira na Cidade da Praia e o seu funeral privado realiza-se terça-feira na Ilha da Boavista, sua terra natal.

Cartaz retratando Amílcar Cabral e Aristides Pereira.

Cartaz retratando Amílcar Cabral e Aristides Pereira.

Em Cabo Verde, as reacções de consternação e pesar atravessaram todo o espectro politico. O presidente Carlos Jorge Fonseca, decretou luto nacional por quem descreveu como uma figura marcante da luta pela independência nacional.

“Foi uma noticia recebida com pesar e consternação. Todos os cabo verdianos se curvarão com respeito perante a figura e memoria de Aristides Pereira”, disse o presidente enviando condolências à família.

A ministra adjunta e da Saúde, Cristina Fontes Lima, que na ausência do primeiro-ministro, em Nova Iorque, o substitui na chefia do executivo, mostrava-se consternada.
“Sinto um grande pesar… Devo dizer que para todos nós é uma dor. Fico com muita pena, profundamente triste”, disse.

Aristides Pereira, com Chester Crocker, responsável dos Assuntos Africanos da administração Reagan, nos anos 80.

Aristides Pereira, com Chester Crocker, responsável dos Assuntos Africanos da administração Reagan, nos anos 80.

Já o ex-presidente Pedro Pires preferiu destacar a capacidade de sacrifício de Aristides Pereira. Salientou “a grande capacidade se sofrimento” pelas causas em que acreditava e a sua capacidade de aceitar derrota, como quando perdeu as eleições, mantendo-se “sempre fiel aos seus ideais e aos seus amigos”.

Aristides Pereira inspirou outros cabo-verdianos a servir o país e essa é a forma como Basílio Ramos, presidente do parlamento, o homenageia. “Durante 15 anos trabalhou para lançar as bases do estado que temos hoje”, declarou Ramos acrescentando que “Cabo Verde perde um grande filho (…) que desde a juventude se dedicou de corpo e alma a Cabo Verde”. E prosseguiu: “O exemplo dele deverá guiar-nos na construção do país. Eu que era miúdo, posso garantir que a minha geração, que hoje tem funções de relevo… aprendemos muito com ele”.

Carlos Veiga, presidente do MPD, Partido Para a Democracia situou a sua evocação de Aristides Pereira, nos contactos que manteve com ele para a legalização do seu partido e, quando, mais tarde, venceu as primeiras eleições democráticas. Salientou que o então Presidente da República “recebeu-nos bem, foi sempre cordial e assegurou a transição” entre o governo anterior e o primeiro governo saído das eleições democráticas.

Reagindo à morte de Aristides Pereira, o antigo ministro e diplomata cabo-verdiano Corsino Tolentino, relembrou o papel fundamental desempenhado pelo primeiro presidente de Cabo Verde na génese da sua nação e o cunho por ele deixado no actual sistema político multi-partidário do arquipélago.
De acordo com Corsino Tolentino o nome de Aristides Pereira ficará naturalmente associado ao proceso da transformação de “uma colónia de importância muito marginal para um país soberano, batalhador e com sucesso desde que ascendeu à independência”.

Mário Soares, com Aristides Pereira, durante uma visita a Cabo Verde, em 1986

Mário Soares, com Aristides Pereira, durante uma visita a Cabo Verde, em 1986



O nosso interlocutor realçou também o facto de Aristides Pereira ter lutado sempre pela unidade nacional e por um país melhor transformando-se assim numa figura supra-partidária.

Corsino Tolentino recordou ainda que ex-presidente participou activamente não só na criação do estado de direito durante os primeiros 15 anos de independência como também, em 1991, no processo de transição para o actual regime político de multi-partidarismo em Cabo Verde.

Também o jornalista e pesquisador cabo-verdiano José Vicente Lopes falou do legado histórico-político do presidente Aristides Pereira.

Para Vicente Lopes, o primeiro presidente cabo-verdiano fez a diferença dos seus pares africanos pelo seu posicionamento de não-alinhamento, dado ao seu carácter pacifista.

Aristides Pereira, primeiro Presidente de Cabo Verde, faleceu hoje na cidade portuguesa de Coimbra, após prolongado internamento hospitalar.

Aristides Pereira, primeiro Presidente de Cabo Verde, faleceu hoje na cidade portuguesa de Coimbra, após prolongado internamento hospitalar.

Segundo ainda o jornalista cabo-verdiano as acções de Aristides Pereira foram cruciais para a paz na região da África Austral, e dá o exemplo de suas intervenções junto ao George Bush pai, aos líderes políticos angolanos, e sul-africanos, para a sua de conflitos como a guerra civil em Angola, a independência da Namíbia e o fim do apartheid na África do Sul.

Os seus camaradas na Guiné-Bissau não têm dúvidas: Aristides Maria Pereira era uma figura pragmática, humanista e disciplinada. Carlos Correia, com o qual teve uma relação especial, segundo o próprio, recordou que foi Aristides Pereira que, em 1959, o salvou da então temível Policia Internacional e de Defesa do Estado, conhecida pela sigla PIDE.

"Salvou-me da PIDE", disse Correia à VOA. E adianta que Aristides o avisou que a PIDE estava no seu encalço e lhe arranjou transporte para fugir. Carlos Correia, que com 77 anos já foi, várias vezes, primeiro-ministro, recorda o falecido estadista como um homam "alegre, humanista, mas que sabia brincar quando era necessário"..

Morreu Aristides Pereira

Morreu Aristides Pereira



Quem também trabalhou com Aristides Pereira, enquanto ocupava as funções do secretário-geral Adjunto do PAIGC e chefe da Logística e da Economia do partido durante a luta de libertação da Guiné e Cabo-Verde é Luís Oliveira Sanca. Oliveira Sanca, um dos decanos do partido libertador, lembrou que esta figura histórica foi essencial da preparação das negociações, em Argélia, entre Bissau e Lisboa sobre a independência das então duas colónias.

Segundo ele, foi Pereira quem "entabulou negociação com a direcção do sistema colonial na base do reconhecimento, de jure, da indapendência da Guiné-Bissau declaradada anteriormente.

Figura de Aristides Pereira recordada em Bissau, tanto assim que o PAIGC, partido no qual foi um dos destacados dirigentes, reuniu a sua Comissão Permanente, para lembrar Pereira que foi um exemplo do grande Combatente da Liberdade da Pátria e por conseguinte reitera a sua solidariedade para com o PAICV e o povo cabo-verdiano.

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