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Analistas moçambicanos dizem que pré-condições emperram diálogo

  • Ramos Miguel

Afonso Dhlakama e Filipe Nyusi (Arquivo)

Afonso Dhlakama e Filipe Nyusi (Arquivo)

O previsto encontro entre o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, para discutir a paz em Moçambique ainda não tem data marcada, aparentemente devido à pré-condição colocada pela Renamo, relativamente à aceitação, pelo Governo, da presença de mediadores internacionais.

Há o sentimento de que dada a esta exigência da Renamo relativa aos mediadores, muito dificilmente o diálogo entre as partes, interrompido faz já bastante tempo, vai ser retomado, apesar de insistentes apelos nesse sentido de vários sectores da sociedade moçambicana.

Refira-se que as opiniões dividem-se quanto a esta questão, havendo quem considere que o envolvimento da União Europeia, da África do Sul e da Igreja Católica nos esforços para a pacificação em Moçambique não constitui pré-condição, dado ter sido apresentado há bastante tempo pela Renamo.

Outro entendem que o Governo tem também o direito de apresentar as suas pré-condições.

O analista político Fernando Mbanze acha que o diálogo pode ser retomado, se os políticos quiserem porque o que a Renamo coloca não são pré-condições.

"O que a Renamo coloca são pontos que já estão em cima da mesa há bastante tempo: são daquelas questões que não foram resolvidas ontem e devem ser resolvidas antes de se avançar para o diálogo", considera Mbanze.

O analista refere que "a Renamo diz que enviou uma carta à Presidência da República propondo uma mediação, uma vez que acha que não vale a pena voltar a reunir-se sem a presença de pessoas de consenso, que possam, eventualmente, tentar aproximar as partes, mas essa carta ainda não foi respondida".

De salientar que o Governo moçambicano ainda não se pronunciou sobre esta exigência.

Contudo, o professor da cadeira de negociação e resolução de conflitos no Instituto Superior de Relações Internacionais de Moçambique, Calton Cadeado, defende que o diálogo deve começar sem pré-condições ou ambas as partes devem ter o direito de colocar pré-condições.

Na sua opinião, a Renamo deve conferir ao Governo o mesmo direito de colocar as suas pré-condições, de modo a os dois lados partam numa mesma base em que cada uma tem o direito de colocar as suas pré-condições.

De acordo com aquele académico, se a presença dos mediadores é crucial para a Renamo, "o Governo também tem que nos dizer quais são as suas pré-condições, mas o que parece é que, pelo pronunciamento do Chefe de Estado, é uma negociação que deve começar sem pré-condições".

"Cada uma das partes deve decidir se assume o posicionamento de um e do outro, mas se fosse para o meu caso, uma vez que a Renamo fincou pé na questão das pré-condições, acho que era momento oportuno para o Governo colocar também como pré-condição, a questão do desarmamento", destacou o académico.

Por seu turno, o sociólogo Rogério Sitoi diz que o diálogo pode e deve ser reatado porque o tempo corre contra o Governo e a Renamo, mas sobretudo contra o Executivo da Frelimo, que poderá ser penalizado nas urnas, se as próximas eleições autárquicas se realizarem em clima de instabilidade.

Sitoi entende que as eleições autárquicas podem chegar numa situação de absoluto cansaço das populações, quer seja da Frelimo, quer seja da Renamo.

Para o académico, "as eleições também podem chegar num momento em que pode ser questionada a capacidade do Governo da Frelimo em encontrar os caminhos do processo de paz".

Sitoi diz ainda que "estão neste momento a fazer o Dhlakama e a Renamo, essa coisa de mortes de civis, as pessoas podem condenar, mas a quem exigem, porque tem contrato social, é ao Governo da Frelimo".

Aquele sociólogo referiu ainda que a incapacidade de resolver o problema, normalmente é atribuída a quem com quem se tem o contrato social, que o Governo da Frelimo, "e então, isso pode conduzir a uma fragilização deste Governo".

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