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Mankiko, o imbumbável de Sérgio Piçarra, vai desenrascando

  • Amâncio Miguel

Só vos olho só, Sérgio Piçarra

Só vos olho só, Sérgio Piçarra

Piçarra lança dois livros de cartoons e reclama mais liberdade de expressão em Angola.

No calão angolano, bumbar é o mesmo que trabalhar. Sérgio Piçarra, criou, há 25 anos o personagem Mankiko, que não trabalha. A sua vida é feita de arranjos. Desenrascada. Makinko é imbumbável.

Piçarra conta que Mankiko foi criado para “encarnar um individuo padrão dentro do cenário negativo, que representa um lado especifico da nossa sociedade (angolana)”.

E passadas duas décadas e meia, diz Piçarra, “o imbumbável vai desenrascando, sobrevivendo” no seu estilo característico. Pouco ou em nada honesto.

Com as imagens de Mankiko e outros personagens, Piçarra satiriza a sociedade angolana e publica regularmente em, pelo menos, duas plataformas de referência para atingir maior audiência.

E para perpetuar esse trabalho, Piçarra lançou neste final de semana, em Luanda, duas colectâneas: "Apreciando o cenário nas calmas" e "Só vos olho já".

Cartoon de Sérgio Piçarra

Cartoon de Sérgio Piçarra

​Nos dois livros, ele reúne trabalhos concebidos e publicados entre 2008 e 2015. Entre os temas consta a crise de divisas e petróleo, e a questão dos “’revús”, os 17 jovens activistas dos direitos humanos recentemente condenados, alegadamente por terem cometido o crime de associação de malfeitores e tentativa de golpe de estado contra presidente José Eduardo dos Santos.

Em conversa com a VOA sobre os dois livros, Piçarra conta que cada título terá uma tiragem de mil exemplares Tudo foi graças ao apoio de amigos, uma vez que as “editoras estão descapitalizadas”.

Parte do que render na venda dos livros reverterá a favor de uma organização de caridade, provavelmente, diz, a "Pastoral da Criança do Cazenga," em Luanda.

“Uma das coisas que me preocupa é o futuro…e nada mais representa o futuro como as crianças,” justifica a opção, e ressalva que é também uma forma de “retribuição do apoio que tive para publicar” os livros.

Mais liberdade de expressão

Satisfeito com o a aceitação popular do seu trabalho, o cartoonista lamenta o facto de nunca ter sido convidado ao festival anual da especialidade, em Luanda. Outra inquietação é a impossibilidade de colocar os seus cartoons no Jornal de Angola, ironicamente no qual viu, pela primeira vez, publicadas as suas obras, no início de carreira.

“Não faz muito sentido (…) há outros cartoonistas anteriores a mim também ignorados,” desabafa Piçarra, que sublinha que “viver de arte não é fácil; depende da vontade de algumas pessoas que controlam os jornais”.

Piçarra, que gostaria de “atingir outros patamares” e criar cartoons não apenas a pensar num mercado com limitações, quer mais liberdade de expressão em Angola, porque acredita que isso pode estimular o surgimento de mais cartoonistas e maior qualidade.

“Praticamente sou o único cartoonista com este impacto. Numa sociedade normal, com liberdade de expressão, eu seria mais um,” diz.

Acompanhe aqui a entrevista:

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