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Dados da UNICEF sobre Angola são incorrectos, diz especialista angolano


Estatisticas sobr escolaridade primária e mortalidade infantil estão longe da realidade porque são baseados em informações do governo, diz Nelson Pestana Bonavena

Um relatório do Fundo das Nações Unidas para Criança, UNICEF, sobre a criança e mulheres em Angola contém informações “ “optimistas demais para uma realidade tão grave quanto a angolana”.

Quem o diz é Nelson Pestana Bonavena, Director Adjunto do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, que afirma que os pontos incorrectos referem-se aos dados sobre a frequência escolar no ensino primário e os dados sobre a mortalidade infantil.

O Relatório sobre “A criança e a mulher em Angola”, publicado a 16 de Junho, estima que a taxa de frequência no ensino primário ronda a volta dos 80 porcento. Já a mortalidade de menores de 5 anos está em 194 por mil nados vivos ao passo que a morte de crianças com menos de um ano está estimada em 119 por cada mil nascidos com vida.

Nelson Pestana Bonavena - cientista político - Angola

Nelson Pestana Bonavena - cientista político - Angola

O pesquisador salienta que estes dados estão muito distantes da realidade angolana, pelo que carecem de discussão e de precisão, já que são muito baseados em dados oficias que em sua opinião, tendem a dar “uma boa imagem do governo”.

“Os dados oficiais não se preocupam em dar uma boa imagem da realidade nacional, mas uma boa imagem do governo. Este é um problema com o qual nós temos que lidar quando ratamos estes dados”, disse.

A Coordenação do Fundo das Nações Unidas para Infância em Angola reconhece a pobreza de dados e por isso anunciou o lançamento do “Inquérito múltiplo de Saúde”.

A Coordenadora Adjunta da Unicef em Angola Amélia Russo de Sá reconhece a escassez de dados sobre a real situação, por isso defende que seja importante a realização de mais inquéritos e estudos.

“Um ponto fundamental das recomendações é que as nossas acções, as acções do Executivo, dos seus parceiros de desenvolvimento, da sociedade civil têm que ser baseadas em evidências, em dados. Faltam-nos muitos dados”, disse a responsável que advertiu por outro lado que para se abordar com propriedade sobre os problemas de saúde “precisamos saber realmente o que se passa no terreno”.

Nelson Pestana Bonavena salienta por outro lado que a forte dependência dos dados oficias na produção de relatórios leva ao cometimento de lapsos, pelo facto de em alguns casos serem manipulados e não corresponderem a realidade.

O investigador explicou por outro lado que a existência de dados que não correspondem a realidade efectiva, sobre as quais muitas instituições se baseiam para elaboração de relatórios não é um problema apenas do Fundo das Nações Unidas para Infância, mas sim do país.

O académico justificou afirmando que em alguns casos são dados desactualizados fruto da incapacidade de produção de dados primários.

“Têm uma grande dependência dos dados oficiais e que muitas vezes não correspondem necessariamente a realidade efectiva. Primeiro porque algumas vezes são empolados, mas sobretudo porque normalmente já têm um certo tempo e não são actualizados”, disse

A única fonte actualizada que foi utlizada pela Unicef que é utilizada por todas as outras instituições que produzem relatórios, neste caso foi o censo 2014.

Todas as outras fontes nacionais que foram utilizadas tem este problema de ter uma certa antiguidade que faz não ter a expressão exacta da realidade”.

O também Coordenador do Relatório Social do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola referiu por outro lado que o relatório da Unicef sobre a “Criança e a Mulher em Angola” espelha a realidade angolana, porém são de igual forma muito optimista, já que a realidade é mais grave que os dados apresentados.

“Ele espelha a realidade em princípio e em alguns casos é optimista em relação a realidade. A realidade é mais optimista em relação a realidade que é mais grave do que aquilo que a Unicef nos apresenta. A Unicef como todas as outras instituições que produzem relatórios aqui em Angola, incluindo o Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola trabalham a partir de dados oficiais. A diferença está na desagregação destes dados e leituras e contas no cruzamento dos dados oficias que normalmente são dados em bruto”, explicou.

E para colmatar a lacuna de falta de dados, que para a Coordenadora Adjunta da Unicef em Angola faz com que o país esteja numa posição desagradável, o Ministério da Saúde e os seus parceiros, estão a desenvolver um estudo denominado “Inquérito múltiplo de Saúde”.

O objectivo é apresentar dados mais exactos sobre a realidade sanitária angolana, “conhecer as causas e a extensão do problema”, bem como contribuir para definição de políticas que sirvam para colmatar das dificuldades das populações mais vulneráveis.

“Neste momento há uma equipa. O Unicef tem dois consultores que apoiam o Instituto Nacional de Estatística que é o instituto que está a dirigir este inquérito com o Instituto Nacional de Saúde. São indicadores que vão permitir medir a mortalidade infantil, a questão também da mortalidade materna”, frisou Amélia Russo de Sá.

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