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Ana Clara Guerra Marques: A diva da dança angolana

  • Margareth Covie

Máscara Tchokwé

Máscara Tchokwé

Bailarina, coreógrafa, professora e investigadora começou a construir, há décadas, uma tradição de dança contemporânea em Angola.

23 Jan 2011 - É teimosa, determinada e fiel aos seus ideais. Esses são apenas alguns dos adjectivos que podemos usar quando falamos de Ana Clara Guerra Marques, a bailarina, coreografa, professora de dança e investigadora. Pode ouvi-las, nas suas próprias palavras, clicando na barra de som imediatamente antes deste texto ou logo depois dele.

Conta, em conversa com Margareth Nanga Covie, que a dança entrou de fininho e aos pouco se instalou. Não teve nada haver com aquela paixão arrebatadora quando sabemos qual é o nosso destino, o que queremos para nós. Aos seis anos já dançava, ia as aulas por diversão disciplina e para passar o tempo.

A dança é hoje a vida dessa mulher que aos 15 anos foi convidada a dirigir “a primeira escola de dança” da Angola independente. Foi um convite sem muitas opções. Na altura, o então secretario de Estado para a Cultura, o escritor António Jacinto, viu em Clara Guerra Marques, a directora ideal.

Foi uma experiência dura, difícil e agreste. Não apenas pela sua juventude, mas principalmente porque não havia dança contemporânea angolana. Mas aos poucos ela mesmo foi tomando mais a sério o trabalho, assim como todos os que a rodeavam. Aprenderam a confiar na jovem bailarina e directora. Assim a dança se instalou na sua vida, seu pensamento e no seu dia-a-dia.

Estudou dança, tornou-se Mestre em Performance Artística. Hoje está a fazer o seu doutoramento sobre as danças de máscaras do povo Tchokwé de Angola. o que a torna a única investigadora das patrimoniais.

Essas danças são uma paixão viva e forte. Há uma história de amor entre Ana Clara e as danças de máscaras da cultura dos povos Tchokwé, localizados sobretudo no leste de Angola.

E essa relação apaixonante é hoje a sua vida. Durante anos alimentou o sonho de ela mesma poder ser uma máscara Tchokwé, uma ideia que é totalmente contraria à cultura dos povos das Lundas e Moxico, pois uma mulher não pode ser máscara. Só os homens o podem ser. Mas Ana Clara conseguiu.

Ela é também e membro individual do Centro Internacional de Dança (CID) da UNESCO. Outra tarefa que tem executado como missão é o relançamento da Companhia de Dança Contemporânea de Angola. Em 1991 fundou a primeira e a única que até ao momento existe. Mas Ana Clara sonha com uma escola básica e superior de dança em Angola. No entanto é um sonho que há muito tem conhecido os seus inimigos.

Na pele de coreógrafa, Ana Clara recorda que pelas suas mãos já passaram algumas gerações de angolanos. É um trabalho de 20 anos, que pode ter a sua continuidade na Oficina de Dança que quer montar.

Outra das suas frentes de batalha é o mérito de pessoas que se apresentam como profissionais, sem qualquer título académico

O dia 29 de Abril é já uma data marcada na agenda da Companhia de Dança Contemporânea Angolana, pois começa, nesse dia, mais uma temporada, que se prevê de sucessos. Já conquistou o seu espaço e, apesar de os resultados não ainda os que deseja, parecem estar a ser aceitáveis para essa exigente professora de dança contemporânea angolana.

E no também conhecido mês da paz em Angola. Ana Clara vai levar aos palcos um tema que tem haver com que chamou de “dissecação social”. As desigualdades entre a maioria pobre e a minoria abastada vai dar vida aos corpos dos bailarinos.

Ana Clara Guerra Marques aproveita o seu tempo livre para visitar praias, mas prefere as calmas, enquanto não consegue por outra vez a literatura em dia, também aprecia um bom filme. Confessa que gosta de funge mas acha que comer é perda de tempo.

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