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Cabo Verde: eleição presidencial alerta para abstencionismo político

  • Alvaro Ludgero Andrade

Analistas falam em reforma do sistema que deve dar resposta às demandas dos cidadãos.

Jorge Carlos Fonseca foi reeleito no domingo, 2, Presidente de Cabo Verde com 74 por cento dos votos, mas tanto observadores como cidadãos através das redes sociais ergueram uma bandeira amarela: a abstenção.

A elevadíssima abstenção de 64,3 revela aspectos que analistas remetem para uma profunda reflexão sobre a saúde da democracia cabo-verdiana, que, apesar de madura e sólida, poderá estar a ser apenas formal, com fenómenos como apatia ou abstencionismo político.

Nas suas primeiras declarações, o Presidente reeleito preferiu considerar a sua vitória de histórica devido à sua expressão, dando pouco valor à abstenção.

Jorge Carlos Fonseca, reeleito Presidente de Cabo Verde

Jorge Carlos Fonseca, reeleito Presidente de Cabo Verde

«A vitória que alcançamos foi muito acima dos 70 por cento, vencendo em todas as ilhas, em todos os concelhos do país, em todos os círculos da diáspora. É a mais expressiva de sempre na democracia cabo-verdiana», fez questão de realçar, Jorge Carlos Fonseca que considerou a sua reeleição uma vitória para a cidadania e liberdade.

«É uma vitória para todas as mulheres e de todos os homens que prezam e acreditam no valor máximo da liberdade de poderem escolher quem os representa», sublinhou o Presidente que dentro de semanas inicia o seu segundo e último mandato.

Respostas

Entretanto, tanto a imprensa como observadores e cidadãos nas redes sociais destacam a abstenção de 64,3 por cento, a mais elevada da história.

Margarida Fontes, jornalista e escritora cabo-verdiana

Margarida Fontes, jornalista e escritora cabo-verdiana

Apesar de a abstenção ser historicamente alta nas eleições presidenciais, o facto de Cabo Verde ter realizado três actos eleitorais e a ideia de o Chefe de Estado num sistema de parlamentarismo mitigado não ter a força do primeiro-ministro também pesaram nesse resultado, de acordo com a jornalista Margarida Fontes.

Para a apresentadora do programa de debates da Televisão de Cabo Verde “Conversa em Dia”, “há um certo cansaço do eleitorado", mas há outros factores, como, por exemplo, o de o “PAICV não ter marcado presença ou apoiado qualquer candidato”.

Com uma democracia formal já bem cimentada em 25 anos, Cabo Verde pode estar a enfrentar uma certa estagnação das instituições que começam a não dar resposta às demandas, principalmente dos mais jovens.

Nardi Sousa, sociólogo e investigador cabo-verdiano

Nardi Sousa, sociólogo e investigador cabo-verdiano

O analista e professor universitário Nardi Sousa fala no perigo de retrocesso da democracia porque “num conceito muito abstracto, o cabo-verdiano pode estar a entrar num processo de auto-engano”.

Para Sousa, a democracia é o melhor sistema que existe, mas tem de ser efectiva, ou seja “ser assente na transparência, boa governação, respeito pelos direitos humanos, funcionamento da justiça, mas há indicadores que apontam que a saúde do poder nacional e local em Cabo Verde não é boa”.

Reinventar a política

Sem dar respostas às demandas dos cidadãos, continua Sousa, o sistema democrático é inóquo e “infelizmente vemos jovens formados sem opções, à procura da emigração, universidades com potencial mas sem recursos para colocar o saber ao serviço da sociedade e uma justiça social que está longe de ser a desejada”.

Esta realidade, para Margarida Fontes, merece um olhar colectivo e avisa para o que começa ser chamado de um certo “abstencionismo politico”, que pode ser pior que a abstenção.

“Há desinteresse para a politico e ontem alguém falava num abstencionismo politico, muito para além do abstencionismo eleitoral, as pessoas falam da política sem crédito”, reforçou aquela analista que defendeu um “reiventar a nossa política”.

A maturidade do eleitorado cabo-verdiano, de acordo com estudos e observadores, entrou na idade adulta ao ponto de exigir respostas.

As taxas de abstenção entre 40 e 63 por cento nas três eleições nos diveros actos eleitorais revelam uma certa apatia da sociedade devido à falta de respostas dos políticos.

Nardi Sousa, que critica esta falta de respostas, chama a atenção também para “vários interesses que podem surgir” e que podem emperrar o desenvolvimento de Cabo Verde que, desde a independência de 1975, tem sabido renovar-se”.

Para ele, “este é um perigo real que pode colocar em causa o próprio sistema, e isto exige uma profunda reflexão de todos”.

PAICV derrotado

Refira-se que na corrida ao Palácio do Plateau estiveram também dois independentes sem quaisquer apoios das outras duas formações políticas nacionas, PAICV e UCID, Albertino Graça, que conseguiu 22,8 por cento dos votos e Joaquim Monteiro, com 3,4 por cento.

Com a eleição presidencial, Cabo Verde encerrou o ciclo eleitoral de 2016, com o MpD a assumir-se como o grande vencedor das legislativas e autárquicas e a fazer eleger o candidato presidencial por ele apoiado.

O PAICV, partido no poder de 2001 a Março passado, é, sem dúvida, o grande derrotado de 2016.

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