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Violência no topo da agenda eleitoral no Brasil

  • Maria Cláudia Santos

Os relatos de actividades dos bandidos e a falta de acção eficaz das autoridades de segurança pública são constantes.

A violência é o segundo tema que mais preocupa os brasileiros, aparecendo logo depois da saúde neste ano de eleições para presidente, governadores, deputados e senadores. Pela pesquisa do Instituto Datafolha, 25 por cento da população que vai às urnas, no dia 5 de Outubro, acham que este é o maior drama do país.

A preocupação é facilmente entendida. Outra pesquisa, do mesmo Instituto, já havia mostrado antes que um em cada cinco brasileiros já sofreu algum crime violento no último ano. Os relatos de acções dos bandidos e a falta de acção eficaz das autoridades de segurança pública são constantes.

O sociólogo Flávio Sapori, ex-secretário de segurança pública do Estado de Minas Gerais, explica porque a área é um grande desafio para os governantes que serão eleitos, em um dos países mais violentos do mundo."Os homicídios nos colocam numa posição muito desconfortável no cenário internacional. São mais de 56 mil ao ano, além de um milhão de assaltos. O desafio é grande e, principalmente, pelo facto de que a violência continua crescendo no Brasil, nos últimos 15 anos, apesar dos avanços económicos e sociais. A pobreza diminui no Brasil e a violência continua crescendo em um ritmo muito acelerado", afirma.

Para analistas, a impunidade está entre os principais factores que contribuem para que o Brasil esteja entre os 20 países mais violentos do mundo. Flávio Sapori concorda. "Uma raiz primordial, por uma razão muito simples: a impunidade significa baixa certeza de punição. O criminoso, quando comete o crime no Brasil, sabe que a chance de ele ser investigado, identificado, preso e processado é pequena. Da mesma forma que, se ele é preso e condenado, ele também fica pouco tempo, porque a legislação brasileira penal é muito branda nesse sentido".

À impunidade, soma-se o crescimento do consumo de drogas ilícitas no país para explicar a violência que tira o sono do brasileiro. "Isso torna a sociedade brasileira mais violenta, não pelo aspecto do consumo, mas pelo aspecto do comércio da droga. O tráfico é uma actividade económica ilegal com alto grau de violência. Ele vai se consolidando à medida em que a sociedade brasileira diminui a pobreza e avança na economia. O tráfico acompanha a riqueza e não a pobreza, a miséria".

E as saídas? Para o estudioso, qualquer que seja o Governo eleito ele terá que percorrer quatro caminhos, ao mesmo tempo, para enfrentar o desafio da segurança pública no Brasil. "O primeiro deles, o Brasil precisa mudar a legislação. Nós precisamos transformar o homicídio no crime mais grave e imperdoável desse país. Segundo, as duas polícias precisam trabalhar de forma mais integrada. Elas vivem brigando entre si e isso gera ineficiência", explica.

"Precisamos também urgentemente desenvolver projectos de prevenção social, que evitem o ingresso de meninos, de 15 a 24 anos, no tráfico de drogas. A quarta linha de acção é melhorar a capacidade de gestão das secretarias estaduais e municipais de segurança. Hoje, o pouco dinheiro que temos é mal gasto. De maneira geral, os gestores não são bem capacitados. Isso pressupõe formar tecnicamente, criar uma expertise de segurança pública no Brasil", encerra Sapori.

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