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O racismo à brasileira é o principal problema dos afrodescendentes


Rio de Janeiro, Praia de Ipanema, Brasil

Rio de Janeiro, Praia de Ipanema, Brasil

A discriminação racial atrelada á desigualdade social é uma constante dentro e fora dos territórios brasileiros

A luta pelo enfrentamento do “racismo à brasileira” é, inegavelmente, a principal pauta dos movimentos afrodescendentes no Brasil. A afirmação é do coordenador do Círculo da Juventude Afrodescendente das Américas, Richarles Martins, um dos participantes do evento internacional que discute, esta semana, no estado da Bahia, a situação dos povos de origem africana que vivem na Ibero-América.

O Afro XXI é realizado na capital Salvador até este sábado (19). A expectativa é de que deste evento seja retirada a Carta de Salvador, com propostas de ações práticas para a inclusão dos afrodescendentes nos países da região. Richarles Martins lembra que a discriminação racial atrelada á desigualdade social é uma constante dentro e fora dos territórios brasileiros. “O racismo é estruturante do processo de desigualdade social na realidade Latino Americana e Caribenha. Nesse sentido, qualquer construção de política que tenha objetivo de combater a desigualdade passa pelo enfrentamento ao racismo e, necessariamente, pela garantia da participação da juventude e da mulher afrodescendente nos processos de inclusão e de desenvolvimento”, afirma o coordenador do Círculo da Juventude Afrodescendente.

O dirigente do movimento negro concorda que, no Brasil, a população afrodescendente tem dificuldades específicas em efetivar políticas afirmativas para negros por causa do tipo do racismo dissimulado do brasileiro. “Nós não temos compreensão de que somos racistas, que discriminamos em razão da raça e etnia. Contudo, eu acredito que tivemos alguns avanços em especial na última década com a implementação de políticas afirmativas nas universidades, com a criação de mecanismos institucionais, como a Secretaria de Políticas Públicas de Igualdade Racial com status de Ministério da Presidência da República. Nós temos exemplos de conquistas, mas a sociedade brasileira anda passa por um processo de aprimoramento das formas democráticas de constituição do nosso estado nas novas formas de fazer política.”

Para Martins, esse processo histórico de racismo do brasileiro interfere muito na vida prática da maior parte da população afrodescendente. “Seja na perspectiva do não reconhecimento da sua identidade, de ainda termos uma representação, inclusive midiática. Os afrodescendentes, as negras e os negros, não se vê representado nos espaços de poder e na mídia como um todo: na novela, no jornal. Isso interfere no nosso processo de saúde mental e na nossa construção de identidade. Então, é inegável que ainda hoje na nossa sociedade, com todos os avanços e todo o processo de desenvolvimento econômico, temos no nosso processo societário muita dificuldade de garantir equidade para a sociedade que mais necessita.”

Além dos específicos de cada país, os povos afrodescendentes enfrentam desafios ainda maiores em momentos como o atual, de crise econômica, quando temos o recrudescimento de práticas racistas e xenofóbicas. “Nesses processos de crise a população que mais sofre é a afrodescendente. Cada vez mais temos desafios e pautas para lutar até efetivamente conquistar uma sociedade mais justa e igualitária,” destaca Martins.

Um das provas de que a luta racial é impactada em todos os lugares pelas articulações mundiais, na opinião do dirigente do movimento negro jovem, foi a baixa participação de países no evento realizado este ano, em Nova York, pelas Nações Unidas, para comemorar os 10 anos da Conferência Mundial de Combate ao Racismo, realizada em Durban. “Nós tivemos pouquíssimos países presentes após 10 anos de comemoração da conferência que é o maior mecanismo legal de combate ao racismo no mundo. Isso é um reflexo de que a pauta do racismo se articula diretamente com as transformações no mundo, com os processos de articulação entre os países. E outro exemplo que tange a isso, a sociedade brasileira em 2001 contava com mais de 200 organizações sociais do movimento negro na Conferência Mundial do Racismo. E no evento mais importante desse ano que deveria ser a reunião de avaliação dos 10 anos de Durbam agente tinha apenas sete organizações sociais do movimento negro presente.”

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