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Angola: Edição d’a Capital Queimada na Gráfica

  • Alexandre Neto

Luanda, Angola

Luanda, Angola

Uma semana inteira de produção, duas edições completas em pouco menos de 48 horas vetadas à circulação. Ardinas e leitores por interpelados pela VOA nesta segunda-feira ainda mantinham uma certa expectativa de ver a Capital nas ruas.

O pomo de discórdia foi a censura do editorial do jornal sobre os preços das casas sociais avaliadas em 60 mil dólares americanos, preços anunciados no discurso do presidente Eduardo dos Santos, na passada semana.

Perante a exiguidade dos salários em Angola, o articulista segundo fontes por nós contactadas questionava não só a capacidade financeira do cidadão comum de pagar tais quantias, como fazia contas ao tempo requerido e os necessários desembolsos.

O semanário chegou a ir a gráfica. Ali foram impressas três mil e quinhentas cópias, de seguida embebidas em diluente e queimadas na mesma instalação fabril.

Mesmo com sacrifício dos jornalistas chegou a ser produzida uma edição alterada e enviada para a rotativa. No sábado madrugada a segunda edição desapareceu. Testemunhas que presenciaram o episódio depararam-se com viaturas VX não identificadas que transportaram os atados. Os jornais desapareceram sem que tivessem vindo à rua.

Nos últimos tempos o argumento dos novos patrões que ainda não deram a cara publicamente (mas que fazem valer os seus argumentos por entrepostas pessoas), apontam para a necessidade de se substituir temas políticos pelo social. Por outro lado, a imagem de Eduardo dos Santos passou a ser alvo de resguardo sobretudo se usada para ilustrações de matérias críticas.

Este foi outro dos pontos de discórdia neste último número. A foto do presidente foi retirada dos textos.

Marcela Costa, administradora do órgão, disse-nos desconhecer as razões que estariam por detrás da situação mas prometeu um pronunciamento nas horas seguintes, o que não chegou a acontecer.

Perguntamos a Justino Pinto de Andrade conhecida figura de intervenção pública mediática se este era um forte sinal do retorno a novos métodos de censura (?) O político ironizou dizendo que “estes eram efectivamente velhos métodos” recordando o tempo colonial.

“Nos dias que correm a censura estava de certo modo localizada ao nível dos órgãos de comunicação social estatais. A deslocação desta prática para os órgãos privados é realmente uma preocupação...”rematou.

O objectivo é condicionar a opinião pública com vista às próximas eleições.” O regime, acrescentou o nosso interlocutor, “fará tudo por tudo para ter o controlo da media à data das eleições. Para alguns dos órgãos a opção foi a compra. Para outros a asfixia será feita até o desfalecer. Este é o projecto que há para a comunicação social privada que se apresentava como o único canal de respiração que restava da sociedade. Com a media pública partidarizada e a privada tomada mais ou menos pelas mesmas pessoas o futuro é muito sombrio...”concluiu.

Vinte mil dólares americanos podem ter sido gastos no pagamento com uma tiragem gráfica. É um prejuízo do qual pouco importará aos novos proprietários, enquanto os fins continuarem a justificar os meios ou seja dinheiros cujas origens nunca são esclarecidas.

Com tiragem acima dos cinco mil exemplares, a Capital figurava ser um dos mais lidos da praça.

Esta intervenção marca o ressurgimento duma era de intimidação directa, depois que a sofisticação dos métodos usados encobriu ao longo dos últimos anos o ambiente de repressão sobre a liberdade de imprensa e de expressão em Angola. Os críticos, porque já não se morre a tiro por exemplo, começam agora a enfrentar dificuldades para provar tal repressão.

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