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"Capoeira Angola" é instrumento de inclusão e símbolo da paz


"Capoeira Angola" é instrumento de inclusão e símbolo da paz

"Capoeira Angola" é instrumento de inclusão e símbolo da paz

A capoeira, que já foi considerada um crime no Brasil, é uma mescla de luta e dança, que ganha cada vez mais espaço no mundo

Capoeira

Capoeiristas, simpatizantes da prática e estudiosos preparam no Brasil as bases para o Encontro Nacional-Pró Capoeira, que será realizado no estado da Bahia, no mês de Julho. Um dos eventos voltados para essa preparação ocorreu recentemente em Belo Horizonte. A cidade do Estado de Minas Gerais sediou o 3º Encontro Nacional da Capoeira Angola. O encontro debateu o papel da capoeira como patrimônio imaterial brasileiro e como instrumento de educação na formação da criança e do adolescente.

A capoeira, que já foi considerada um crime no Brasil, é vista hoje no país como um instrumento de inclusão social e símbolo da paz. A prática, que mescla luta e dança, ganha cada vez mais espaço em várias partes do mundo. O historiador e pesquisador da Fundação Centro de Referência da Cultura Negra, Marcos Cardoso, comenta esse destaque que a capoeira recebe mundialmente.

Exibição de Capoeira Angola

Exibição de Capoeira Angola

“A capoeira foi tomada como patrimônio imaterial da cultura brasileiro e, hoje, tem visibilidade internacional. Pessoas de outros países começam a se interessar pelo ensino da língua portuguesa por causa da capoeira. Ela está bem viva. O que falta são políticas públicas que ajudem a capoeira ser mais inserida na sociedade.”

O historiador também fala da importância dos debates em torno da capoeira no Brasil como um instrumento de resgate do passado e de mudança para o futuro. “Hoje a capoeira é como se fosse uma ferramenta pedagógica que equilibra o afetivo, o psíquico e o social de grande parcela da juventude, sobretudo das periferias. A capoeira por ser lúdica, trazer os elementos da história, trabalhar com música, canto e o corpo é uma ferramenta importante para o processo de apredizagem do respeito, do exercício da cidadania,” explica.

Exibição de Capoeira Angola

Exibição de Capoeira Angola

“A prática da capoeira em si mesmo traz elementos da circularidade, a roda. Nos grupos de capoeira você tem um respeito muito grande à diversidade étnica. Ela propulsiona uma sociabilidade, entre crianças e adultos. Uma criança branca ou negra que não gosta de outra na escola, precisa apertar as mãos na capoeira e isso é um gesto pedagógico e de respeito”, conclui Marcos Cardoso.

Um dos organizadores do 3º Encontro Nacional de Capoeira de Angola, o capoeirista Mestre Primo, explica a luta para que a prática se perpetue. “Para quem trabalha com a capoeira de raiz o mais importante é a preservação da história, porque é ela que nos remete ao futuro e nos orienta no presente. É nessa linha que estamos indo, no sentido da transformação do pensamento. Porque, quando começamos a ter consciência da nossa história, naturalmente o pensamento em relação às outras pessoas muda. Dessa forma, vamos construindo de devagar uma transformação no futuro.”

Pausa num treino de Capoeira Angola

Pausa num treino de Capoeira Angola

Outro capoeirista, Mestre João, lembra que diferentemente de outras derivações da capoeira, a de raiz, chamada também de Capoeira Angola, tem como grande objetivo ajudar na educação. “A capoeira regional, que é a vertente mais acrobática, marcial e mercadológica da prática, tem o sonho de ir para as Olimpíadas. Já a Capoeira Angola, tem a preocupação com o meio educacional, principalmente, com a escola pública onde está o negro de baixa renda”.

História

A Capoeira Angola tem mais de 400 anos no Brasil. A prática foi o primeiro crime instituído no Brasil no período da República e levou muitos capoeiristas para a prisão. Mas, visão dos brasileiros sobre a atividade evoluiu ao longo do tempo.

Em documentário sobre o tema, o historiador, Luis Eduardo Silva, explica que falar de capoeira no Brasil é falar da escravidão no país. “A capoeira, a partir do século 19, começa a aparecer na questão das fugas de escravos. Aí surge o nome capoeira. A dificuldade que o capitão do mato tinha para recapturar o negro tinha como desculpa o fato dele ter ido para a ‘capoeira’, não ter como recapturar”.

Segundo o estudioso, a capoeira nasceu unindo os povos africanos escravizados no Brasil. “Existia uma camaradagem entre as nações que eram escravizadas aqui no Brasil. Procuravam colocar nas senzalas povos diferentes, com línguas diferentes. Mas, por incrível que pareça, apesar das diferenças de dialetos, os escravos conseguiam a comunicação. A capoeira surge desse caldeirão cultural.

Luis Eduardo Silva lembra que a capoeira, nos seus primórdios, levava os escravos de volta à África. “A luta, os batuques, a música, como era cantada como era feita era uma festa grande que toda a senzala participava. Era como se você estivesse voltando à África, matando a saudade.

Para o presidente da Associação Cultural Eu Sou Angoleiro, Mestre João, a Capoeira Angola conquistou esta importância por ter resistido às tentativas de destruição por parte do colonizador.

“Os nossos ancestrais conseguiram manter íntegro o conhecimento corporal, musical, percussivo e rítmico que desperta a memória genética e que trabalha com conceitos de solidariedade, negociação de conflito, integração cósmica e autoconhecimento”, afirma.

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