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Colonialismo e futebol - Não houve racismo em Portugal


Amante da história e do futebol, juntou o útil ao agradável - Professor Todd Cleveland

Amante da história e do futebol, juntou o útil ao agradável - Professor Todd Cleveland

Futebolistas africanos escolheram a via "apolítica" para jogarem em Portugal

Africanos no futebol português

Os futebolistas africanos que jogaram em Portugal na era colonial não foram alvo de racismo, indicam entrevistas feitas por um investigador americano.

Muitos desses jogadores falaram a um investigador americano que concluíu que a esmagadora maioria dos futebolistas africanos que fizeram nome em Portugal durante a era colonial eram “apolíticos”.

O professor Tod Cleveland está a efectuar um estudo sobre a presença em Portugal de jogadores vindos das colónias de África.

O estudo deverá eventualmente ser publicado, provàvelmente no próximo ano.

Cleveland é professor de história africana na Universidade de Augustana em Illinois disse à Voz da America que o estudo que está a efectuar é o resultado de dois interesses seus, a África lusófona que o levou a visitar alguns desses países e o futebol. E o estudo foi assim uma especie de juntar o útil ao agradàvel.

E que lhe chamou a atenção, disse ele, foi aquela selecção de Portugal de 1966 que tanto sucesso teve e que em termos raciais era inédita na Europa. Nessa selecção que quatro efectivos eram moçambicanos. Eusébio, Coluna, Hilário e Vicente.

Três estrelas do futebol de sempre (da esquerda para a direita) Alfredo Di Stefano, Eusébio e Ronaldo.

Três estrelas do futebol de sempre (da esquerda para a direita) Alfredo Di Stefano, Eusébio e Ronaldo.



Isto numa altura em que as guerras pela independência já tinham começado.

“Comecei a pensar sobre que tipo de conflicto interno esses indíviduos poderiam ter tido sabendo que estão a jogar pelo colonizador enquanto há guerras nas suas terras natais´,” disse Cleveland

Para o professor Cleveland portanto o seu interessse inicial era tentar saber como era possível “navegar e negociar esses tempos difíceis”.

Cleveland já entrevistou vários jogadores e o que descobriu foi que esses jogadores decidiram seguir uma via apolítica.

Cleveland recordou que por exemplo Eusébio disse que “o futebol é a minha política”.

Esta via, disse, permitiu-lhes manter um equílbrio de popularidade tanto em Portugal como nas colónias de onde eram provenientes.

O professor Cleveland disse que óbviamente houve excepções, recordando por exemplo Daniel Chipenda “que jogava na Académica e que acaba por regressar a Angola para lutar”.

“Mas em França há muitos mais exemplos de jogadores que deixaram a França para participarem nas lutas pela independência,” disse o professor.

“ Mas os africanos que foram para Portugal são na generalidade muito apolíticos,” acrescentou.

Todd Cleveland fez notar a este propósito que a situação política em França era diferente da de Portugal.

A França era uma democracia enquanto Portugal vivia debaixo de uma ditadura que restringia a todos a liberdade de expressão e de possibilidade de participação na política do país.

Um pormenor interessante, contudo, é que muitos desses jogadores que foram para Portugal tornaram-se cidadãos portugueses e nunca deixaram Portugal, mesmo apos as independências dos seus países de origem.


Alguns analistas afirmam que isso se deve em parte aos regimes totalitários que foram impostos apos a independencia e Cleveland disse que parte da explicação para este fenómeno se deve ao facto de as duas grandes colónias portuguesas, Angola e Moçambique terem entrado numa fase de conflicto civil immediatamente após a independência.

“Fiz essa pergunta a muitos jogadores e quase que por unanmidade responderam que gostavam da sua vida em Portugal e que pelo contràrio queriam trazer o maior numero possivel de familiares para Portugal,” disse.

O professor Cleveland disse que os jogadores que entrevistou não se queixaram de terem sofrido discriminação racial em Portugal embora alguns tivessem dito que recebiam menores salàrios do que jogadores da mesma qualidade nascidos em Portugal. Tanto jogadores africanos como portugueses nascidos em Portugal falaram da harmonia que existia nos balneàreos entre jogadores de todas as raças

“Eusébio indica numa biografia que recebeu alguns telefonemas anónimos com ameaças racistas mas como sabe na altura havia tão poucos africanos em Portugal que eram tratados como uma novidade,” disse.

“ Não havia africanos em numero suficiente para haver um problema racial,” acrescentou

Durante as suas entrevistas com jogadores o professor Cleveland descobriu que muitos jogadores vindos de África – aqueles que não tinham pretensões de poder jogar em grandes clubes – buscavam duas equipas em particular: A Académica de Combria e a extinta Cuf.

A primeira pela possibilidadede abrir portas aos estudos a outra por ser uma equipa ligada a uma enorme companhia, a Companhia União Fabril e portanto a possibilidade de garantir empregos.

O angolano Màrio Torres fez-se famoso como jogador da Academica onde depois terminou um curso de medicina.

Màrio Wilson também por là passou embora tivesse ficado a apenas uma cadeira de terminar o seu curso.

Numa recente homenagem a Eusébio a Mário Wilson disse que a Académica tinha sido "um dos seus dois grandes amores", sendo o outro o Benfica

O professor Cleveland tenciona agora vistiar Moçambique e Angola para falar com jogadores que passaram por Portugal e e regressaram e mesmo com aqueles que não foram grandes estrelas.

É sua intensão publicar provávelmente no próximo ano um livro sobre este fascinante assunto . Aqueles que seguem o futebol, a historia a politica do futebol aguardam com interesse

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