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O Optimismo do Passado


O Optimismo do Passado

O Optimismo do Passado

Há algumas décadas, o Secretário da Saúde dos Estados Unidos, W.H. Steward, declarou ao Congresso em Washington que tinha chegado a hora de arquivar o dossiê das doenças infecciosas . E pouco depois, o renomado biólogo John Cairnes escrevia que o mundo ocidental havia praticamente eliminado as doenças desse tipo.

ANA- Infelizmente, o optimismo deles não tinha fundamento. O professor Dennis Pirages, da Universidade de Maryland, informa que todas as guerras do século XX mataram 111 milhões de pessoas, isto é, uma média de 1, 1 milhão por ano. Actualmente, as doenças infecciosas matam, segundo ele, 14 vezes mais, anualmente.

RENATO- O optimismo do passado relativamente recente deveu-se à confiança despertada pelo formidável arsenal terapêutico montado pelo homem, com particular destaque para os antibióticos. Mas os microorganismos conseguiram se ajustar ao ataque dos medicamentos antimicrobianos, que foram assim perdendo eficácia. É o fenómeno chamado de “resistência antimicrobiana”.

ANA- A Aliança para o Uso Prudente dos Antibióticos (APUA) , sediada nos Estados Unidos, está a estudar durante anos o problema, e a colaborar para a sua solução. Trata-se de um esforço que precisa ser feito em nível global, e com a cooperação de governos, comunidades e dos próprios pacientes. A APUA elaborou um guia com as perguntas mais frequentes sobre o tema, e vamos agora resumir os principais pontos constantes desse documento.

RENATO- Em primeiro lugar, cabe explicar porque os microrganismos, especialmente as bactérias, tornam-se resistentes aos remédios. Trata-se de um fenómeno natural decorrente da ocorrência de mudanças nas bactérias, ditas “mutações” - muitas vezes até por engano - e que fazem com que elas sobrevivam à acção terapêutica.

ANA- As bactérias podem tornar-se resistentes de duas maneiras: ou devido a mudanças genéticas, ou ao receberem a aptidão à resistência transmitida por outra bactéria. Conforme seja o tipo de mutação, a resistência manifesta-se de modo diferente. Por exemplo, algumas mutações capacitam a bactéria a produzir potentes substancias químicas, chamadas “enzimas”, que tornam os antibióticos inactivos. Outras mutações eliminam a célula que era o alvo do ataque dos antibióticos.

RENATO- Ainda há mais, Ana. Algumas mutações fecham por assim dizer a porta de entrada dos antibióticos. E outras - vejam só!- colocam em acção uma espécie de bomba que suga o remédio e o expele para o exterior do organismo, de forma que ele nunca atinge o alvo. É um processo que parece até denotar uma espécie de superinteligência dos micróbios. Mas não queremos entrar nesse delicado terreno, que pertence mais à ficção cientifica.

ANA- É, mas dá o que pensar, Renato. Enfim, dissemos há pouco que uma bactéria pode transmitir a outra a sua capacidade de resistência. Como assim? Por um processo conhecido como “conjugação”, que significa a transferência do material genético, incluindo o sistema de códigos genéticos (parece até coisa de espionagem...). Outro modo de transmissão é por meio de um vírus. Ou seja, as características da resistência são arquivadas, por assim dizer, numa gaveta do vírus, e quando este ataca uma bactéria, transfere essas características para ela.

RENATO- Cerca de 53 milhões de pessoas no mundo são portadoras de um estafiloco reforçado, o MRSA. Mesmo em paises como Holanda, Suécia e Noruega, onde a presença do MRSA estava a ser relativamente estável, sua incidência começa já a subir.

ANA- O que é MRSA? É a abreviação em inglês de Staphylococcus Aureus Resistente à Meticilina. Calcula-se que dois bilhões de pessoas, ou seja, 25 a 30 por cento da população mundial, abrigam alguma forma do estafilococo aureus, ou dourado, como é dito em português. Ele se localiza nas narinas ou na garganta e não costuma causar nenhum sintoma digno de nota. No entanto, quando a pessoa tem um sistema imunológico enfraquecido, ou sofre um pequeno ferimento, ou entra em contacto com outra pessoa infectada, podem aparecer sintomas, a começar por vermelhidão na pele.

RENATO- Em 1961, na Grã Bretanha, foi descoberta essa forma particularmente perigosa do estafiloco, o MRSA, que passou a ser conhecido como o super-micróbio. Durante muito tempo, ele parecia confinado aos hospitais, mas na década de 90 percebeu-se a existência de uma forma afectando as comunidades ( “community associated” quer dizer, associada com a comunidade). Essa nova forma é bastante perigosa, podendo causar um tipo de pneumonia habitualmente fatal. Um paciente infectado com o MRSA tem probabilidade cinco vezes maior de morrer do que outro paciente.

ANA - A bactéria se alastra pelo contacto cutâneo entre indivíduos infectados, e pode ser transmitida por meio do compartilhamento de objectos, como lâminas de barbear e toalhas. Ela frequentemente atinge mais de uma pessoa em determinada família, e pesquisadores no Canadá descobriram que animais de estimação e seus donos podem transmitir a bactéria uns para os outros.

RENATO- O MRSA é hoje motivo de grande preocupação, e representa um dos exemplos mais eloquentes de resistência antimicrobiana. Somente a Vancomicina parecia apta a controlá-lo, mas os médicos receiam que isso não vá durar muito, porque já apareceram sinais de resistência a esse tão útil antibiótico, que serve frequentemente de recurso extremo, quando os demais medicamentos falharam.

ANA Outro exemplo de resistência antimicrobiana é o triclosan. Trata-se de um ingrediente usado nos hospitais ou consultórios de dentistas como desinfectante. Isso faz sentido porque ele ajuda a prevenir a disseminação de agentes patogénicos. Mas higienistas se preocupam de que o seu uso generalizado, em doses fracas, em bens de consumo, como detergentes e produtos de limpeza, ou plásticos, crie resistência por parte dos microrganismos a diversos tipos de antimicrobianos. O uso do Triclosan deveria ser restrito a práticas medicas. Sua aplicação na vida diária é supérflua, porque sabão e água podem alcançar os mesmos benefícios do ponto de vista da higiene.

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