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Preservam na memória cenas de violência


Preservam na memória cenas de violência

Preservam na memória cenas de violência

Os deslocados que tem estado a chegar aos campos de acolhimento em Darfur, preservam na memória, cenas de violência que os forçou a abandonarem as suas aldeias de origem.

Para muitos dos deslocados que procuraram refugio no campo de Zam Zam, na periferia de El Fasher, na parte norte de Darfur, as atrocidades cometidas pelas milícias árabes, não serão tão cedo esquecidas, mesmo absorvidas pela batalha pela sobrevivência nos campos de acolhimento.

O pesadelo começou para os recém chegados ao campo de Zam Zam, quando as suas aldeias foram atacadas pelas milícias Janjaweed, no inicio de Setembro.

As milícias árabes, recrutadas pelas autoridades de Cartum em Fevereiro de 2003 para combaterem a rebelião na região sudanesa de Darfur aterrorizaram a população civil, numa intensa campanha de violência, de violações e assassinatos, que atingiu proporções de um genocídio e que resultou em milhares de deslocados internos e refugiados nos países vizinhos.

Halima Ahmed é uma das recém chegadas ao campo e pergunta hoje a si mesma, como foi possível ter conseguido fugir com cinco crianças.

Conta que colocou um no braço esquerdo, um outro no direito e uma terceira nas costas. E pergunta, o que fazer com as outras duas crianças, em caso de fuga...

As mulheres no campo de Zam Zam alegam que as milícias Janjaweed querem se ver livres delas. Amina Haroun lembra-se ainda perfeitamente do que os Janjaweed a disseram ao chegarem a sua aldeia de origem.

‘Ela diz que quando os Janjaweed chegaram à aldeia, chamaram-lhes de negros que mereciam morrer... que havia necessidade de limpar essas terras dos africanos, porque a terra pertencia aos árabes.’

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Confrontos tribais opondo comunidades descendentes de árabes aos agricultores negros ganharam nos últimos anos proporções alarmantes a ponto de levarem os Estados Unidos a considerá-lo de genocídio.

Mas o pesadelo dos assassinatos está longe de ter terminado . As Nações Unidas e demais agencias humanitárias que operam na região tem vindo a denunciar casos de violações praticadas pelas milícias Janjaweed e que acabam por funcionar como uma arma para silenciar as mulheres negras sudanesas.

Isto por uma simples razão. Nas sociedades muçulmanas, ser -se violado e vergonha. Uma mulher violada e considerada invalida e passa a ser tratada com desprezo pela comunidade.

Nenhuma das mulheres no campo de Zam Zam admite terem sido violadas, mas todas elas alegam ter amigas, vizinhas que terão sido alvo de actos de violação.

Mariam Yasin, relembra aqui o seu primeiro contacto com os Janjaweed.

‘Quando as milícias Janjaweed chegaram, diz ela, levaram algumas mulheres que foram violadas. Não me conseguiram apanhar porque fugi ... Ao longo da fuga, conta Mariam Yasin, fui-me cruzando com crianças, algumas que assemelhavam não ter mais do que três anos de idade. Estavam igualmente em fuga, mas sozinhas.’

As mulheres do campo de Zam Zam estão confusas e frágeis. Mas dois jovens do campo, identificados por Mohamed e Ahmed manifestam-se dispostos a combater os Janjaweed, seja com que meio for...

Situações do género, têm dificultado o processo de pacificação de Darfur. Seis ronda negociais, entre o governo de Cartum e os rebeldes de Darfur terminaram em Outubro ultimo sem que um acordo final para a região tivesse sido alcançado e o principal grupo rebelde, esta na iminência de fazer face a uma cisão interna.

Os recém chegado ao campo de Zam Zam sentem-se felizes por terem sobrevivido à violência dos Janjajweed, mas revelam que a situação de vida no campo é bem difícil.

Ali Mohamed Fadul e o cheique tribal dos recém chegados ao campo. Diz que mais de 18 mil pessoas das aldeias da sua área, encontram-se hoje no campo.

Eles tem-nos tratado bem no campo, diz Ali Fadul, não obstante não termos ainda recebido nenhuma ração alimentar consistente, facto que de acordo com este líder tribal tem forçado muitos dos recém chegados a regressarem as suas aldeias de origem. Mas mesmo assim, Ali Fadul não culpa os trabalhadores do campo, pela difícil situação que enfrentam.

Nenhum dos responsáveis do campo manifestou-se disposto a comentar.

Para os funcionários das Nações Unidas, a situação é deveras complicada. A erupção da violência na região resultou na chegada inesperada ao campo de vários milhares de novos deslocados. Muitos dos residentes no campo queixam-se da fome e de doenças.

Fatna Adam, que se crê ter 60 anos de idade, queixa-se de dores no corpo, que atribui em parte a idade, agravada pela fome e por traumas emocionais.

Os residentes do campo de Zam Zam não pensam no futuro. Vivem o dia a dia, preocupados em matar a fome de cada dia. Muitos deles mantêm viva na memória, a violência de que foram vitimas, algo que dificilmente conseguirão superar nas suas vidas.

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