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Autoritarismo e tradição são obstáculos na luta contra o Ébola

  • Redacção VOA

Peritos em saúde pública dizem que medidas autoritárias podem ter um efeito contrário alienando ainda mais as comunidades afectadas.

Os países africanos afectados pela epidemia do vírus Ébola continuam a anunciar medidas cada vez mais rigorosas para tentar impedir o alastramento da doença incluindo penas de prisão para as pessoas acusadas de esconderem indivíduos infectados pelo vírus.

No entanto peritos em saúde pública dizem que medidas desse tipo podem ter um efeito contrário alienando ainda mais as comunidades afectadas.

O antropólogo senegalês Cheik Ibraima Niang afirmou à VOA que foram os dias que passou na aldeia de Njala fazendo pesquisa no leste da Serra Leoa que o marcaram mais.

Njala costumava ter cerca de 300 habitantes. Mas, agora, muitas casas estão vazias e famílias inteiras morreram devido ao Ébola.

Niang disse-nos que quando a sua equipa começou a realizar entrevistas os habitantes disseram-lhe que era a primeira pessoas que os ouvia e contaram-lhe que 46 pessoas tinham falecido no último mês e que ninguém tinha falado com eles.

Segundo Niang as populações não têm sido consultadas quando se trata dos esforços para salvá-las e isso suscita uma certa resistência.

“Em vez de se usar o diálogo e a persuasão, disse Niang, usamos métodos autoritários e essa via cria problemas”.

Niang estava na aldeia de Kenema a 25 de Julho quando uma multidão tentou atacar o centro de tratamento de ébola. A polícia dispersou-os com disparos e gás lacrimogénio.

Segundo ele isso demonstra a tensão e a angústia do povo que, no fundo, apenas clama por segurança e apoio.

Niang afirma por outro lado que os centros de saúde e os funcionários sanitários dos países afectados encontram-se ultrapassados pela situação e não dispõem do equipamento necessário.

“ As pessoas com quem falei, disse Niang, expressaram frustração e raiva pelo facto de terem sido praticamente abandonados”.

Segundo o antropólogo conter esta epidemia de Ébola vai ser muito dificil tendo em conta que nada está a ser feito para mudar os hábitos e as tradições locais.

Visto que o vírus Ébola se transmite por contacto com os fluidos de pessoas infectadas, as mães não podem tocar nos filhos doentes e as famílias não podem enterrar os seus mortos como habitualmente.

Trata-se segundo Niang do domínio do sagrado, do absoluto, dos laços familiares e das emoções que nos tornam humanos e para se conseguirem resultados positivos o diálogo e a informação têm que substituir a atitude autoritária e paternalista assumida até agora pelos governos dos países afectados pela epidemia de Ébola.

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